Saudita é sentenciada a 10 chibatadas por dirigir

É a primeira sentença do tipo desde junho, quando dezenas de mulheres foram para as ruas ao volante, em uma série de protestos contra a proibição

RIAD, ARÁBIA SAUDITA, O Estado de S.Paulo

28 Setembro 2011 | 03h05

A Corte saudita sentenciou ontem uma mulher a dez chibatadas por dirigir. Shaima Jaistaina desafiou a proibição imposta às mulheres pelo governo. A decisão veio num momento de celebração para elas - no domingo, o rei Abdullah bin Abdulaziz al-Saud tinha anunciado que as mulheres poderão votar e se candidatar em eleições pela primeira vez desde que a monarquia se instalou no poder, há 88 anos.

Além de Shaima, outras dezenas de mulheres respondem na Justiça por dirigir automóveis e algumas delas passaram dias na cadeia. Esta, no entanto, essa é a primeira vez que uma delas é condenada. A informação foi passada pela ativista Samar Badawi e confirmada pela Anistia Internacional.

Em junho, Shaima, Samar e outras sauditas foram para as ruas à frente do volante e publicaram os vídeos em redes sociais. As imagens ganharam o mundo em um período turbulento no mundo árabe - foi a primavera delas.

Com carteiras de motorista do Egito e Líbano e outra internacional, que usa para dirigir quando viaja à Europa, Najalaa Harriri, de 45 anos e mãe de cinco filhos, foi uma das que desafiaram a monarquia. Nem o apoio do marido convenceu as autoridades a deixá-la seguir. Najalaa foi interrogada no domingo pelo procurador-geral de Justiça, em Jeddah. Segundo seu advogado, Waleed Aboul Khair, ela será julgada dentro de um mês e pode ter o mesmo destino de Shaima.

Para as ativistas, esses julgamentos revelam o abismo entre a imagem que a monarquia saudita quer passar para o mundo e a realidade no país ultraconservador. "A Arábia Saudita tem sempre dois tipos de retórica. Uma para o exterior e outra, mais restritiva, para agradar aos religiosos internamente", diz Aboul Khair.

"Eu estou chocada com o veredito. O rei não merecia isso", disse Sohila Zein el-Abydeen, membro da Sociedade Nacional para Direitos Humanos, entidade do governo, sugerindo que o monarca não tem controle sobre a Justiça. "Como podem as mulheres receberem chibatadas quando a pena máxima para uma infração de trânsito é uma multa? Até as mulheres do Profeta montavam camelos e cavalos, o único meio de transporte da época".

O Grande Mufti, autoridade religiosa local, abençoou a sentença, dizendo que é "para o bem das mulheres". A Arábia Saudita é o único país do mundo que não permite às mulheres dirigir. As que não têm entre US$ 300 e US$ 400 por mês para contratar um motorista particular têm de contar com um homem da família para levá-las à escola, ao médico, ao shopping.

Campanha. A luta das sauditas pelo direito de dirigir dura há pelo menos duas décadas. Em 1990, mais de 40 mulheres desafiaram o governo ao sair nas ruas ao mesmo tempo dirigindo os carros dos pais. Embora não fosse uma proibição legal, elas passaram um dia na cadeia, tiveram seus passaportes confiscados e muitas perderam o emprego, por pressão de autoridades religiosas.

Na época, o rei Abdullah declarou publicamente que chegaria o dia em que as mulheres seriam autorizadas a dirigir. Elas fundaram, então, o Comitê das que Demandam o Direito de Dirigir Carros. Mas, mais de 20 anos depois, esse dia não chegou. / AP

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