REUTERS/Jean-Paul Pelissier
REUTERS/Jean-Paul Pelissier

Mulheres sauditas assumem o volante após fim de proibição para dirigir

Riad derruba última proibição do tipo no mundo a mulheres e espera impulso de US$ 90 bilhões para a economia

O Estado de S.Paulo

24 de junho de 2018 | 21h13

RIAD - As mulheres da Arábia Saudita foram às ruas dirigir neste domingo, 24, após o fim da última proibição do mundo a motoristas do sexo feminino, há muito vista como um símbolo da repressão das mulheres no reino muçulmano profundamente conservador.

“É um dia lindo”, disse a empresária Samah al-Qusaibi, enquanto percorria a cidade de Khobar no leste do país, pouco depois da meia-noite, com a polícia observando. “Hoje estamos aqui”, disse ela do banco do motorista. “Ontem estávamos sentadas lá”, acrescentou, apontando para o banco de trás.

O fim da proibição, ordenada em setembro pelo rei Salman, é parte de amplas reformas promovidas por seu poderoso filho, o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, em uma tentativa de transformar a economia do maior exportador de petróleo do mundo e abrir sua sociedade. “É um momento histórico para todas as mulheres sauditas”, declarou Sabika Al Dosari, uma apresentadora de televisão, antes de cruzar a fronteira com o Bahrein em um sedã.

O fim da proibição, que durante anos atraiu condenação internacional e comparações com o Taleban no Afeganistão, foi bem recebido pelos aliados ocidentais, como prova de uma nova tendência progressista na Arábia Saudita. Mas tem sido acompanhado por uma repressão às divergências, incluindo contra alguns dos próprios ativistas que anteriormente fizeram campanha contra a proibição. 

A maioria das novas motoristas terá de treinar em novas escolas oficiais, com a expectativa de 3 milhões de mulheres nas estradas até 2020.

Algumas ainda enfrentam resistência de parentes conservadores, e muitas acostumadas a motoristas privados dizem que estão relutantes em enfrentar as movimentadas estradas do país. “Eu definitivamente não gostaria de dirigir”, disse Fayza al-Shammary, vendedora de 22 anos. “Eu gosto de ser uma princesa com alguém abrindo a porta do carro para mim e me conduzindo para todos lugares.”

Do ponto de vista econômico, o fim da proibição poderia estimular o emprego entre as mulheres. E, segundo uma estimativa da Bloomberg, poderia somar US$ 90 bilhões para a economia até 2030.

Durante décadas, os conservadores se apoiaram em interpretações rígidas do Islã para justificar a proibição de dirigir, alguns até mesmo alegando que as mulheres não eram inteligentes o suficiente para se estar atrás do volante. Muitas mulheres temem continuar sendo alvo deles neste país onde os homens mantêm o status de “tutores”. 

Muitos homens desaprovaram a mudança por temer que ela enfraqueça a profunda identidade conservadora e muçulmana do reino. “No Islã, não temos isso. Na época de nossos pais e avôs, não havia isso de mulher dirigir”, disse o ex-funcionário do governo aposentado Wadih al-Marzouki. Ele disse ter aconselhado seus três genros a não deixar suas mulheres – filhas dele – dirigir. 

Fórmula 1

Para marcar o dia histórico, a piloto de automobilismo saudita Aseel Al-Hamad dirigiu ontem um carro de Fórmula 1 antes do Grande Prêmio da França. Aseel é a primeira mulher membro da Federação Saudita de Automobilismo e integra a Comissão Mulheres no Automobilismo da Federação Internacional de Automobilismo (FIA). 

Ela dirigiu um Renault e deu uma volta no circuito de Le Castellet. “Hoje não é só uma celebração de uma era de mulheres ao volante, mas também o nascimento de uma era de mulheres no automobilismo na Arábia Saudita”, disse. / REUTERS e AFP

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