Sauditas buscam ajuda turca para conter avanço do EI e do Irã

Intermediado pelo Catar, eixo sunita fortalece grupos dessa vertente que combatem Estado Islâmico e Assad na Síria

LUIZ RAATZ, O Estado de S.Paulo

22 de maio de 2015 | 02h02

Em meio ao avanço do Estado Islâmico na Síria e o fortalecimento do Irã no front diplomático e militar - com combates de milícias xiitas na Síria, Iraque e Iêmen -, Arábia Saudita, Turquia e Catar tentam consolidar um eixo sunita para fazer frente aos diversos conflitos em curso no Oriente Médio. A avaliação é dos cientistas políticos turcos Cengiz Çandar e Hasan Semal, que ontem participaram do seminário "A Turquia (democrática?) no explosivo xadrez do Oriente Médio", promovido pela Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) e o Instituto Fernando Henrique Cardoso (iFHC).

Segundo os analistas, desde a derrota dos partidos islâmicos que chegaram ao poder na Primavera Árabe em alguns países do Oriente Médio e Norte da África, a Turquia tem se isolado diplomaticamente na região. Esse distanciamento coincidiu com o aumento da tensão entre sauditas e iranianos, em razão do acordo nuclear negociado entre Teerã e o Ocidente e o auxílio xiita ao líder sírio, Bashar Assad, que combate grupos sunitas financiados pelas monarquias do Golfo e ao governo iraquiano, que tenta expulsar o Estado Islâmico de suas fronteiras, além do incentivo aos rebeldes houthis, no Iêmen.

"Com a coroação do rei saudita Salman, ele se tornou tão inseguro em relação ao Irã, especialmente depois do que ocorreu no Iêmen, que tentou reconstruir um 'eixo sunita'. Para isso, precisava da força militar turca. E o premiê turco, Recep Tayyip Erdogan, estava tão isolado diplomaticamente que aderiu a esse eixo, intermediado pelo Catar. Em troca, o rei saudita deixou para trás seu antagonismo com a Irmandade Muçulmana para acomodar a Turquia", explicou Çandar, ao Estado. "A consequência imediata da aliança foi o fluxo de investimento saudita na Turquia, que já soma US$ 4 bilhões. Em troca, a situação na Síria também mudou, pois a Arábia Saudita financia com logística turca a frente Al-Nusra e outros opositores não ligados ao Estado Islâmico, que são inimigos de todo mundo."

Ainda de acordo com os cientistas políticos turcos, o principal desafio no conflito sírio é saber qual a alternativa mais viável para Assad. "Erdogan também quer que Assad saia. Mas Assad tem apoio muito forte de Irã e Rússia. Os iranianos até aceitariam uma troca de liderança, desde que seu substituto fosse também um alauita. O problema é que a Síria é um castelo de cartas. Se uma cai, o restante desmorona", afirmou Çandar.

Um pacto nuclear com o Irã, sob certo aspecto, ajudaria a reduzir a tensão sectária entre os envolvidos no conflito, que incluem ainda sunitas moderados, a Al-Qaeda e o Estado Islâmico. Por outro lado, um Irã economicamente mais forte ampliaria sua projeção regional. "Vejo a guerra civil como um conflito similar à Guerra dos 30 Anos (1618-1648). Pode se prolongar muito. As pessoas apenas começaram a matar umas às outras", disse Semal.

Tudo o que sabemos sobre:
O Estado de S. Paulo

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.