Saudoso, velho Tonton Macoute ''apresenta-se para o serviço''

Ex-membro do grupo que espalhou o terror no Haiti durante a era Duvalier teve de se exilar após[br]a queda da ditadura

Roberto Simon, O Estado de S.Paulo

18 Janeiro 2011 | 00h00

Ao saber que seu antigo chefe se hospedara no luxuoso Karibe Hotel de Porto Príncipe, Segue Augustin escolheu sua melhor roupa - um terno bege que lhe sobrava nos ombros e uma gravata roxa e preta - e foi "se apresentar para o serviço".

Hoje um senhor franzino, tímido, Augustin era um Tonton Macoute ("bicho-papão", em creole), o esquadrão da morte da dinastia Duvalier que aterrorizou o Haiti e cuidava da segurança pessoal de Baby Doc. "Pronto, ele voltou", disse ao Estado.

Do lado de fora do Karibe Hotel, vários antigos membros do grupo de Tonton Macoutes e da cúpula militar do governo Baby Doc abraçavam-se emocionados.

Augustin, que diz ter 56 anos apesar de aparentar muito mais, era cortejado por todos. "Ele serviu muito tempo a Baby Doc", explicou o também ex-Tonton Macoute Lionel Emanuel, quase às lágrimas ao abraçar o antigo colega. "De 1971 a 1986", precisou Augustin.

Com a queda do regime Duvalier, em 1986, os Tonton Macoutes passaram de predadores a presas - caçados e barbarizados em todo Haiti pelos militares que chegavam ao poder e pela própria população.

Quando Baby Doc fugiu para Paris, Augustin escapou do sangrento acerto de contas embarcando e pedindo asilo no Canadá, onde viveu até 1998. O ex-Tonton Macoute arrumou então um trabalho como funcionário público no Ministério de Assuntos Sociais depois da eleição de Boniface Alexandre, em 2004, cargo que ocupa até hoje.

"Contam muitas mentiras sobre os Tonton Macoutes. Nós não matamos tanta gente, isso é falso", irrita-se Augustin ao ser questionado sobre o reino do terror. "Com Duvalier, esse país andava para frente e não precisava de ajuda de estrangeiros."

Amy Wilentz, autora do livro The Rainy Season: Haiti since Duvalier (A estação chuvosa: o Haiti desde Duvalier), explicou ao Estado que, além de torturar e assassinar milhares de haitianos, os Tonton Macoutes extorquiam dinheiro da população.

Outro que foi ao encontro do ex-chefe no Karibe Hotel foi o coronel Serge Coicou, que integrava a cúpula das Forças Armadas como chefe de Equipamentos do Exército do Haiti. "Realmente desfizemos muitos complôs (para derrubar o governo) e a cada vez endurecíamos mais", relembra Coicou, vestindo uma guaiabeira branca. "Mas eu era só das Forças Armadas."

De acordo com o coronel, ele era um soldado profissional - "já tinha até estudado numa academia militar nos EUA" - quando François Duvalier, o Papa Doc, chegou ao poder. "Mas com os Duvaliers não havia miséria nem tristeza no país. Hoje, olhe o terremoto e as eleições. Tudo acabou ."

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