Schroeder quer reconquistar votos com discurso de esquerda

A França vai votar no próximo domingo e no domingo seguinte. Provavelmente dará a Jacques Chirac e à direita uma maioria na Câmara dos Deputados que o permitirá governar. E outras eleições já se delineiam. Na Alemanha. A Alemanha vota para o Legislativo no dia 22 de setembro - e então, para o futuro chanceler, que pertencerá ao partido majoritário. Votará seja para os social-democratas de Gerhard Schroeder, como atualmente, ou para os cristãos-democratas, que constituem a direita. No atual momento, a oposição, ou seja os conservadores, seguindo seu líder, o democrata-cristão Edmund Stoiber, está na frente. Pelas pesquisas, os social-democratas têm de 33 a 35% dos votos, enquanto os cristãos-democratas reúnem de 38 a 42% da votação. Essa relação de força é paradoxal: a imagem de Schroeder, o social-democrata, é boa entre o público. Com toda razão: o homem tem resistência, força, charme. Ao contrário, o líder dos cristãos-democratas, Edmund Stoiber, é considerado antipático, sem carisma e sem brilho. E, no entanto, é quem provavelmente vai vencer. Em outras palavras, o eleitorado alemão não tem a intenção de punir um homem (Schroeder), mas um sistema, uma ideologia: a da esquerda centrista, que está no poder há alguns anos. E não votará para Stoiber, mas fundamentalmente para o programa de Stoiber, que é conservador. Como Schroeder poderá contra-atacar? O exemplo francês e o desastre a que foi submetido o socialista Jospin merecem uma reflexão. Sem dúvida, ao contrário de Schroeder, Jospin tinha uma imagem ruim. Mas sobretudo, quando Jospin viu que a "direita" se tornava mais forte, tentou desesperadamente ficar mais à direita. Ele aderiu, apagou a vaga tintura socialista que coloria seu programa para, ao contrário, propor medidas cada vez mais conservadoras. Resultado: Jospin não cativou um único eleitor de direita. Em compensação, perdeu muitos eleitores de esquerda. E ei-lo com o nariz no chão! Schroeder poderia fazer a mesma avaliação. Esqueceria seu próprio socialismo (mesmo porque seu socialismo jamais foi muito ardente nem inquietante) para, ao contrário, agradar aos industriais, aos livre-cambistas, aos liberais, aos conservadores. Ora, ele escolheu o caminho inverso. Diante do Congresso de seu partido, o SPD, o primeiro-ministro Schroeder propôs uma tática rigorosamente oposta à de Jospin na França: ele se declarou fortemente, violentamente a favor do socialismo, da justa distribuição de oportunidades e de riquezas da modernidade da esquerda etc, um verdadeiro discurso de combate. Talvez não inteiramente vermelho, mas ligeiramente rosa. E pronunciou esse discurso com um ardor, um lirismo, um fervor bem diferente das monótonas e cinzentas declarações de seu colega socialista francês, Lionel Jospin. Esse brusco despertar da paixão de Schroeder, essa ênfase dada claramente à esquerda, vão inverter o funcionamento da máquina e permitirão aos social-democratas subir a escarpa? Como responder? No momento, uma coisa é certa: Schroeder soube acordar e inflamar os delegados do partido social-democrata. Embora tenham chegado ao Congresso de Berlim com a cabeça baixa, tristes, abatidos com o andamento, desencorajados, resignados com o fato de que uma onda "conservadora" submerge a Alemanha como já submergiu três quartos da Europa, de repente viu-se esses vários socialistas desanimados se tornarem entusiastas. O efeito Schroeder e esse inesperado sobressalto do socialismo terão conseqüências sobre o conjunto de eleitores? É pouco provável. Pelo menos, deve-se reconhecer que o Partido Socialista que dirige Schroeder não tem nada em comum com o Partido Socialista que dirigia Jospin na França. Os socialistas franceses, esclerosados, enfraquecidos, obesos e preguiçosos, como se tivessem saído recentemente de um romance do século 19, parecem sempre a caminho do abatedouro. Os socialistas alemães, após o "grito" de Schroeder, de repente tornaram-se otimistas. Se os observarmos de longe, eles têm até um ar de jovens. São socialistas quase brincalhões.

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