'Se a eleição nos EUA fosse hoje, Obama venceria'

Para especialista, reeleição de americano depende da vitória democrata em apenas mais dois Estados

Entrevista com

DENISE CHRISPIM MARIN , ENVIADA ESPECIAL / CHICAGO, O Estado de S.Paulo

28 Maio 2012 | 03h05

Pouco importa que o presidente Barack Obama esteja em empate técnico com o republicano Mitt Romney nas últimas pesquisas nacionais. Nas eleições americanas, a disputa Estado por Estado conta muito mais, avisa o consultor político independente Don Rose, de Chicago. Assim, Obama precisa apenas vencer nos indecisos Estados de Wisconsin e de Ohio para conseguir os 270 delegados para o Colégio Eleitoral e levar seu segundo mandato em novembro. Rose avalia a eleição de 2012 com a experiência de quem coordenou estratégias eleitorais em 13 Estados americanos nas últimas quatro décadas. Nos anos 60, foi assessor de imprensa de Martin Luther King, em Chicago, e do comando da rebelião ocorrida na cidade, em 1968, por causa do assassinato desse líder pelos direitos civis. Nos 90, Rose participou do mesmo grupo de discussões de desafios dos EUA que Obama, então professor de Direito Constitucional da Universidade de Chicago e, depois, senador por Illinois. Não eram próximos, mas tinham amigos em comum. Rose tornou-se conhecido como o mentor de David Axelrod - personagem da cena política americana apontado, por sua vez, como o mentor de Obama, de quem foi conselheiro até o começo de 2011 e hoje comanda o setor de Comunicações do comitê de reeleição, em Chicago. "Se a eleição fosse hoje, não tenho dúvidas de que Obama ganharia, por margem pequena. Mas não digo que (o candidato republicano, Mitt) Romney não tenha chance", avaliou Rose, em sua casa no Lincoln Park, ao Estado.

As pesquisas apontam empate técnico entre Obama e Romney. Em algumas, Romney aparece na frente. Obama está em real risco de perder a eleição?

Nos últimos 20 anos, os EUA se tornaram cada vez mais dividido entre democratas e republicanos, e as eleições acabam definidas pelos 10% dos eleitores dos Estados indecisos. Obama e Romney têm, cada um, cerca de 45% das intenções de voto. Mas as pesquisas nacionais não dão uma previsão clara porque diluem o peso desses 10% de eleitores indecisos. O melhor indicador é a pesquisa Estado por Estado. O presidente tem o equivalente a 243 votos no colégio eleitoral, contra 170 de Romney. Para vencê-lo, os republicanos terão de ganhar em mais 10 ou 11 Estados indecisos, entre os quais Ohio, Carolina do Norte e o Colorado. Se a eleição fosse hoje, não tenho dúvidas de que Obama ganharia, por margem pequena. Mas não digo que Romney não tenha chance.

Como Obama está nos demais Estados indecisos?

Obama precisa apenas de Wisconsin e de Ohio para obter os votos necessários no Colégio Eleitoral. Wisconsin, aparentemente, ele já conquistou. Ohio é um Estado cuja economia depende muito da indústria automotiva. Obama deu amplo apoio financeiro ao setor durante o auge da crise, mesmo sob críticas. Além disso, John Kasich, governador republicano de Ohio, aprovou uma lei contra greves e acordos sindicais em novembro, que acabou rejeitada em referendo por 61% dos votos. Isso sugere a rejeição do governador republicano e dá a Obama amplas chances de vencer lá. Ele também tem chances no Colorado e, talvez, na Carolina do Norte. Duvido que perca em Iowa, mas Romney vai vencer em Indiana. Em 2008, Obama ganhou em nove Estados nos quais (o ex-presidente George W.) Bush havia vencido em 2004.

O que pode atrapalhar essa tendência?

Eventos de fora, que Obama não será capaz de mudar. Um deles é a recessão na Europa. Se a economia do continente continuar ruim até setembro, a americana deve sofrer nova queda. Obama precisa mostrar a direção a seguir. Com o país em uma segunda recessão em menos de dois anos, ele terá sério problema para ser reeleito. O desemprego está caindo, mas esse indicador está ainda muito frágil. Uma eventual invasão militar ao Irã seria outro problema. A maioria dos americanos até pode aprovar o apoio dos EUA a um bombardeio ao Irã. Mas duvido que queira uma nova guerra.

No que a campanha de Obama peca?

Deveria mudar sua mensagem sobre a tributação dos ricos. As pessoas gostam, em um certo ponto, quando se fala de igualdade. Mas a campanha republicana é oportunista e sabe como contra-atacar. Obama faz bem em defender o fim dos atuais benefícios fiscais aos milionários e em enfatizar a ajuda de seu governo aos pobres e à classe média. Mas deveria parar de atacar os ricos. Neste país, a economia é de oportunidade, não de bem-estar social. Obama precisa mostrar que sua política econômica está criando mais empregos e abrindo oportunidades para mais pessoas se tornarem milionárias no futuro, em vez de apresentar sua proposta como uma punição aos milionários.

O ataque da campanha de Obama à experiência de Romney no setor de private equity (compra de empresas para reestruturá-las e vendê-las) é uma tática correta?

Obama tem de fazer isso porque Romney só tem um patrimônio eleitoral: a sua carreira como homem de negócios. A campanha democrata deveria até ir além, para mostrar que Romney enriqueceu às custas de outros e desacreditar sua carreira.

A campanha republicana tem mostrado Obama como um filhote da máquina política de Chicago, tradicionalmente vista como corrupta. Essa mensagem pode prejudicá-lo?

Isso é um mito. Os republicanos já tentaram isso antes e não conseguiram. A imagem de Chicago como uma cidade dominada por caciques políticos corruptos foi superada dramaticamente há mais de 60 anos. Além disso, Obama nunca fez parte da máquina política democrata de Chicago, embora tenha sido apoiado por ela.

O voto a ser conquistado é o dos independentes. Mas o maior desafio dos partidos é o de convencer seu eleitor, que não é obrigado a votar, a ir à seção eleitoral. Quem tem mais chances de levar o eleitor às urnas, Obama ou o Tea Party?

Obama tem ampla vantagem. A campanha é mais bem organizada para convencer o eleitor a votar, e os voluntários fazem um trabalho minucioso antes e no dia da eleição. O Tea Party está perdendo muito de sua popularidade, energia e seguidores. Em parte, por causa do desempenho de sua bancada no Congresso desde o começo do ano passado. Suas ações são tão inconsequentes que, em Indiana, o Tea Party derrubou a reeleição do senador republicano Richard Lugar e abriu vantagem para o democrata assumir essa cadeira.

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