Se adesão fracassar, Autoridade Palestina pode ser desfeita

Negociador diz que organização pensa em se dissolver e deixar os 4 milhões de palestinos aos cuidados de Israel

Guilherme Russo, O Estado de S.Paulo

18 Setembro 2011 | 00h00

ENVIADO ESPECIAL

RAMALLAH, CISJORDÂNIA

Caso a manobra diplomática para obter o reconhecimento do Estado palestino na ONU não force a volta das negociações para a total autonomia da Cisjordânia e da Faixa de Gaza em um futuro próximo, a Autoridade Palestina (AP) pode ser dissolvida. A informação é de Xavier Abu Eid, um dos principais negociadores palestinos.

Segundo Eid, se o reconhecimento da ONU não resultar em um caminho para a autonomia da região, ocupada por Israel desde 1967, a opção de luta política "não violenta" da AP será deixar de apostar na proposta de dois Estados - aceita pela Organização para Libertação da Palestina (OLP) em 1988, quando a independência foi proclamada. Para isso, a representação se dissolveria, deixando para Tel-Aviv a responsabilidade sobre os palestinos.

A intenção, segundo o negociador, é evidenciar o "apartheid judaico nos territórios ocupados". "Se não conseguirmos a independência, dissolveremos a Autoridade Palestina e entregaremos todas as armas à potência ocupante. Faremos com que os israelenses sejam responsáveis pelos quase 4 milhões que vivem na Cisjordânia e na Faixa de Gaza - controladas por Israel", declarou Eid, na quinta-feira, a um grupo de jornalistas brasileiros em visita a Ramallah.

"Israel tem de entender que, em poucos anos, entre o Rio Jordão e o Mar Mediterrâneo, haverá mais palestinos cristãos e muçulmanos do que israelenses judeus (atualmente, 6,3 milhões de pessoas vivem nos territórios ocupados)."

Eid afirmou que, ao entregar o poder que exerce na Cisjordânia em favor dos israelenses, a AP obrigaria Tel-Aviv a abandonar o caráter religioso do Estado israelense e a dar direitos iguais a todos os cidadãos sob seu cuidado. No entanto, o negociador palestino não acredita que Israel tome essa atitude, mesmo diante desse contexto.

Segundo Eid, com a dissolução da AP, ficaria "claro" perante a comunidade internacional que Israel trata seus habitantes de maneira desigual "oficialmente", como fazia a África do Sul no período do apartheid.

De acordo com o negociador palestino, quando esteve na região, em 2009, o arcebispo sul-africano Desmond Tutu ficou impressionado com as estradas da Cisjordânia, que restringem o acesso dos palestinos, não chegam a cidades e vilarejos árabes da região e, ainda por cima, são cercadas por muralhas e arame farpado. "Ele lembrou que nem nos piores anos do apartheid segregaram as estradas."

Desgaste. "Quando tivermos o veto americano, no mesmo dia ou no dia seguinte, iremos à votação na Assembleia-Geral para elevar nosso status (para Estado não membro). E, depois, voltaremos ao Conselho de Segurança para exigir que os EUA expliquem ao mundo por que vetaram nossa resolução", afirmou Eid, explicando como a AP pretende pressionar os americanos na ONU, já que o veto sempre significa um desgaste político e diplomático.

O Estado palestino conta hoje com o reconhecimento de 122 dos 193 membros da ONU e os palestinos estimam ter garantidos 126 votos na Assembleia-Geral - a adesão como Estado não membro precisa de 129 votos para ser aprovada. O governo israelense teme perder sua legitimidade caso a elevação de status dos palestinos seja aprovada na ONU. "Reconhecer o Estado palestino é ajudar a Palestina, não é atacar Israel", concluiu Eid.

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