''Se ele ficar preso, todos sairemos às ruas''

Partidários de ''Baby Doc'' reúnem-se na frente da sede do partido do líder e prometem reagir às ações da Justiça haitiana

Roberto Simon, O Estado de S.Paulo

19 de janeiro de 2011 | 00h00

Diante de um aparelho de TV no malcuidado jardim da sede do Partido União Nacional, a histórica legenda do ex-ditador Jean-Claude Duvalier, cerca de 40 veteranos do duvalierismo acompanhavam as notícias sobre o destino de Baby Doc, horas antes de ele ser detido. A maior parte dos filiados ao partido é de ex-Tonton Macoutes - a milícia que aterrorizou o Haiti entre 1957 e 1986 -, hoje senhores curvados e desempregados, nostálgicos da era em que "o Haiti não era desse jeito".

Depois que a notícia sobre a volta de Baby Doc se espalhou, os militantes prepararam um bandeirão rubro-negro, as cores do duvalierismo, com inscrições desejando-lhe boas-vindas. O "presente" foi hasteado na parede dos fundos do casarão.

Questionado sobre o que ocorreria se Baby Doc acabasse preso, Angus La Jeunesse, de 76 anos, respondeu: "Todos sairão às ruas, imediatamente". Seus colegas de partido explicam discretamente que La Jeunesse era um importante chefe Tonton Macoute e foi linchado por militares após a queda do regime, há 25 anos. A surra foi tamanha que ele perdeu o dedo médio da mão direita.

Apesar das ameaças dos veteranos, o partido oficial de Duvalier é fraco e largamente desconhecido entre eleitores. Nenhum dos três principais políticos que estão na disputa pela presidência se aliou à legenda, que tampouco declarou apoio a um candidato específico.

No entanto, a figura de Baby Doc ainda cativa muitos haitianos, que ignoram o império do terror sob a dinastia Duvalier e referem-se a um passado mítico no qual não havia criminalidade, drogas e dependência de países estrangeiros - quando um homem forte fazia o Haiti andar "com seus próprios pés".

Um dos mais jovens na sede do partido de Baby Doc, Willy Ottinot, de 48 anos, explica que os veteranos sofreram após a fuga do ex-ditador para Paris, especialmente sob o governo do Partido Lavalas, de Jean-Bertrand Aristide. Ottinot, cujo pai foi cônsul na Flórida no governo François Duvalier, o Papa Doc, explica que as "chimères" (quimeras, figuras monstruosas da mitologia grega) - violentas gangues que davam suporte a Aristide - trouxeram o narcotráfico para o Haiti. "Isso não existia com Papa e Baby Doc."

A maior parte dos veteranos do duvalierismo disse não ter candidato nas eleições presidenciais, cujo segundo turno deve ocorrer nos próximos meses. Entre os que prometiam votar, as opções eram o cantor Michel Martelly ou a ex-primeira-dama Mirlande Manigat. Todos execravam o candidato Jude Celestin, que o presidente René Préval tenta emplacar como sucessor.

Segundo fontes diplomáticas ouvidas pelo Estado, as grandes figuras do duvalierismo que ainda têm poder no Haiti estão apoiando Martelly, que adota um discurso populista de orgulho nacional, sem apresentar uma plataforma política.

Mas, para a maior parte dos veteranos da sede do partido de Baby Doc, o candidato pop star representa a degeneração da sociedade haitiana. "Ele usa calça apertada, anda com gente de cabelo rastafári, usa brincos e fuma crack", diz Raymond Jean-Vanele, de 63 anos, ao saber que um colega de partido votaria no cantor. "Para mim, depois de Deus, é só Jean-Claude."

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