Se eu fosse um israelense

Enquanto Estados Unidos e Israel divergem abertamente a respeito do acordo nuclear com o Irã, andei perguntando a mim mesmo o seguinte: de que maneira eu analisaria este acordo se fosse um quitandeiro israelense, um general israelense ou o primeiro-ministro israelense?

É COLUNISTA, O Estado de S.Paulo

13 de agosto de 2015 | 02h00

Se eu fosse um quitandeiro israelense, que acompanhasse o desenrolar do acordo pelo rádio, eu o odiaria, porque ele mantém o direito do Irã de enriquecer urânio, uma vez que o Irã costuma trapacear a fim de ampliar sua capacidade, embora tenha assinado o Tratado de Não Proliferação Nuclear.

Afinal, o Irã promove manifestações onde defende a "morte de Israel", e, em 2006, patrocinou uma conferência para promover a negação do Holocausto. Além disso, em 2006, a milícia xiita libanesa, o Hezbollah, financiada pelo Irã, deu início a uma guerra contra Israel sem que houvesse uma provocação e, quando Israel recorreu à retaliação contra alvos militares e civis do Hezbollah, este disparou milhares de foguetes fornecidos pelos iranianos sobre todo o território de Israel.

Não - independentemente das salvaguardas. Se eu fosse um quitandeiro israelense rejeitaria o acordo com todas as minhas forças.

Se eu fosse um general israelense, concordaria com o ceticismo do quitandeiro, mas chegaria a outra conclusão (como aconteceu com muitos oficiais militares israelenses). Começaria por lembrar o que o estadista Abba Eban costumava dizer quando os falcões israelenses alertavam para não correr riscos em nome da paz com os palestinos, que Israel não é uma "Costa Rica desprovida de armas".

Não só tem de 100 a 200 armas nucleares, como também pode lançá-las sobre o Irã de aviões, submarinos e foguetes de longo alcance. Também observaria que, se o Hezbollah não lança um ataque contra Israel sem uma provocação anterior desde 2006, é porque conhece, por experiência própria, que a doutrina estratégica básica de Israel é a seguinte: "nenhum inimigo será tão desatinado a ponto de tentar nos expulsar daqui".

Quando é preciso, Israel age de acordo com o que define como "as normas de Hama" - a guerra sem misericórdia. O Exército israelense procura evitar atingir alvos civis, mas demonstrou tanto no Líbano quanto em Gaza que as vítimas civis árabes não o dissuadirão quando o Hezbollah ou o Hamas lançarem seus foguetes dos bairros civis. Não é nada bonito, mas esta não é a Escandinávia.

O Estado judeu sobrevive num mar de muçulmanos árabes porque seus vizinhos sabem que, apesar dos seus costumes ocidentais, não permitirá que se comportem de maneira tresloucada. Israel agirá de acordo com as normas locais.

O Irã, o Hamas e o Hezbollah têm plena consciência disso, e é por isso que os generais israelenses dispõem de poder de dissuasão suficiente contra uma bomba iraniana. Por outro lado, os aiatolás do Irã demonstraram há muito tempo que não são suicidas. Como os estrategistas israelenses Shai Feldman e Ariel Levite escreveram recentemente no National Interest: "Vale a pena destacar que ao longo dos seus 36 anos de história, a República Islâmica do Irã jamais jogou com sua sobrevivência como Saddam Hussein fez por três vezes - ao entrar em guerra contra o Irã em 1980, com a invasão do Kuwait em 1990 e apostando que George W. Bush não o atacaria em 2003.

Se eu fosse um general israelense, portanto, não gostaria nem um pouco deste acordo, mas conseguiria ver seu lado positivo, principalmente se os EUA aprimorassem sua capacidade de dissuasão.

Se eu fosse o primeiro-ministro de Israel, começaria admitindo que meu país enfrenta duas ameaças à sua existência. A primeira, externa, é uma bomba iraniana; a outra, interna, é o fato de não aceitar a solução dos dois Estados, deixando apenas a solução do Estado único pela qual Israel acabará governando tantos palestinos que não conseguiria mais ser uma democracia israelense.

Para enfrentar a ameaça do Irã, eu, como líder de Israel, não pressionaria os judeus americanos a irem contra o seu próprio governo tentando sabotar o acordo - se não tivesse uma alternativa concreta. Este acordo reduz consideravelmente por 15 anos o estoque de urânio do Irã destinado à construção da bomba, e adia a capacidade do país de dispor de uma bomba nuclear de três meses - onde se encontra agora - para um ano. E confiaria que, se eu tivesse condições de fazer com que o Irã ficasse longe de uma bomba por 15 anos, neste meio tempo, todos os técnicos que trabalham para a defesa de Israel criariam muitas outras maneiras de detectar e eliminar todo tipo de avanço iraniano.

E admitiria que, se meus lobistas em Washington conseguissem de fato que este acordo fosse anulado pelo Congresso, o resultado não seria um acordo melhor. Nem seria um acordo, de maneira que o Irã levaria três meses para chegar a uma bomba - além disso, sem a intrusão de inspetores, com a retirada das sanções, e com Israel, e não o Irã, diplomaticamente isolado.

Portanto, em vez de brigar com o presidente Obama, como primeiro-ministro de Israel, eu diria a ele que Israel está disposto a apoiar este acordo, mas quer que os EUA aumentem o que realmente importa - sua capacidade de dissuasão - fazendo com que o Congresso autorize este presidente e os presidentes futuros a usar todos os meios necessários para destruir qualquer tentativa iraniana de construir uma bomba.

Não confio nos inspetores da ONU; confio na dissuasão. E, para aumentá-la, pediria aos EUA que posicionassem no Oriente Médio o Massive Ordnance Penetrator (MOP) da Força Aérea americana, uma bomba de 15 toneladas aproximadamente capaz de destruir bunkers, que destruiria todo reator iraniano escondido nas montanhas.

Os iranianos entenderiam o recado. E então concentraria todas as minhas energias de líder de Israel para me desvincular dos palestinos da Cisjordânia a fim de preservar Israel como democracia judaica. Isso - mais o acordo com o Irã, e uma maior capacidade de dissuasão graças aos EUA - tornaria Israel mais seguro contra ambas as ameaças à sua existência.

Infelizmente, Israel tem um primeiro-ministro cuja estratégia consiste em rejeitar o acordo com o Irã sem dispor de um Plano B confiável, e minimizar a ameaça interna sem um Plano A confiável.

/ TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É COLUNISTA

THOMAS L.

FRIEDMAN

THE NEW YORK TIMES

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