Se for matar em legítima defesa, é melhor ser branco

Não faz mal ter um pouco de privilégio branco ao seu lado, se puder. E George Zimmerman desfrutou ao máximo desse privilégio ao ser absolvido pela morte do adolescente Trayvon Martin. Após a sentença, um de seus advogados, Mark O' Mara, observou que Zimmerman "jamais teria sido acusado de um crime" se fosse negro. Desconheço o sistema judiciário no qual O'Mara trabalha, mas um negro tem mais chance de ser condenado, não importando quem matou - se um negro ou um branco -, mesmo alegando legítima defesa. E muitos deles não poderiam pagar O' Mara para representá-los no tribunal.

ANÁLISE: Danielle C. Belton / NYT, É JORNALISTA FREELANCER, CRIADORA DO BLOG BLACKSNOB.COM, EDITORA DA REVISTA CLUTCH , ANÁLISE: Danielle C. Belton / NYT, É JORNALISTA FREELANCER, CRIADORA DO BLOG BLACKSNOB.COM, EDITORA DA REVISTA CLUTCH , O Estado de S.Paulo

20 de julho de 2013 | 02h05

Não há nenhum privilégio quando um negro alega legítima defesa - mesmo quando ele mata outro negro. Após sua absolvição, Zimmerman tinha o júri e as estatísticas ao seu lado. Um estudo divulgado em 2012 pelo programa Frontline, da emissora PBS, revela que, se uma pessoa mata em legítima defesa nos EUA, melhor que ela seja branca.

Ao analisar dados de John Roman, analista do Justice Policy Center, do Urban Institute, o Frontline concluiu que, nos Estados que sancionaram leis sobre legítima defesa, os brancos que matam negros têm 354% mais chances de terem seu crime justificado. As estatísticas não melhoram em Estados que não adotaram essas leis, em que a porcentagem é de 250%.

Mesmo quando se trata da morte de um negro por outro negro, ou de um branco por um negro, o réu, provavelmente, não desfrutará da justificativa da legítima defesa. Trata-se de discriminação? Não necessariamente. Os dados não mostram as circunstâncias do crime. Há menos ocorrências de assassinatos de negros por brancos nos registros do FBI - apenas 25% do total. O número reduzido é uma das razões pelas quais Roman fez uma análise regressiva, que determina a probabilidade de tais mortes serem justificáveis. O assassino de Martin está livre e aguardamos o desfecho do processo de Michael Dunn, que matou Jordan Davis, na Flórida, por uma briga em razão de "música alta".

O fato de a vida de um negro não ser valorizada como a de outro não é chocante. É uma realidade deprimente, mas que vivemos há séculos. Como alguém pode achar tudo isso estranho se nas décadas de 50 e 60, quando alguém que matasse um ativista de direitos humanos ou um negro e acabasse num tribunal, provavelmente, não era condenado? Afinal, todos aqueles negros ousaram "sair da linha", "não sabem o seu lugar" ou "são arrogantes".

Eles poderiam se casar com sua filha e o filho deles poderia tornar-se presidente dos EUA? Jamais! O privilégio é real. O privilégio branco é especialmente real, principalmente quando se trata dos tribunais americanos. Não importa se você é vítima ou criminoso. Se quer justiça, a única coisa que não deve desejar é ser negro.

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