Se Kissinger telefona, é porque chegou a Copa do Mundo

O futebol não é o esporte preferido dos americanos, mas empate com Inglaterra pode ajudar diplomacia de Obama

Roger Cohen, O Estado de S.Paulo

17 de junho de 2010 | 00h00

THE INTERNATIONAL HERALD TRIBUNE

Henry Kissinger telefonou-me, o que não ocorre com frequência. Ele sempre liga às vésperas da Copa do Mundo, reflexo de uma obsessão compartilhada e do indício de que o futebol vencerá a batalha global por riqueza e influência ou a transferirá para o campo de jogo.

Sobre a seleção americana, que ainda não aprendeu a cometer uma falta intencional, para parar um contra-ataque, ele foi lacônico. "Estamos melhor, mas não temos um estilo nacional que eu consiga discernir. Somos uma obra em progresso, assim como no trato de assuntos internacionais num âmbito global."

É verdade que a adaptação às mudanças de poder do século 21 está se mostrando penosa para os EUA e ainda há uma ingenuidade no jogo americano, apesar do empate por 1 a 1 contra a Inglaterra, na estreia do Mundial na África do Sul, e do vice-campeonato na Copa das Confederações do ano passado.

Sonhos recorrentes afloraram sobre as perspectivas da Inglaterra antes daquele empate desanimador - o mundo tem algumas ilusões maiores do que as que cercam o futebol inglês. Eles logo se renderam ao que um comentarista chamou de " mistura habitual de esperança e horror".

O horror veio na forma de um erro infantil do goleiro Robert Green, ao permitir que um chute fraco de 20 metros de Clint Dempsey escorregasse por seus dedos e igualasse o placar. Esse é um desastre com uma história: nas quartas de final de 2002, foi o goleiro David Seaman que permitiu que um chute de 40 metros de Ronaldinho Gaúcho, do Brasil, passasse sobre sua cabeça.

Foi uma coisa dura de aceitar. A Inglaterra nunca se refez inteiramente, mas a tradição conta no futebol internacional. Nada que Wayne Rooney pudesse inventar no segundo tempo foi capaz de tirar a Inglaterra de uma avassaladora mediocridade. O meia Landon Donovan, dos EUA, foi o melhor em campo. Por causa da BP e do vazamento de petróleo no Golfo, é possível que o empate fosse melhor para o relacionamento especial entre ingleses e americanos.

O fato é que o futebol está no sangue de alguns países. Das 18 Copas do Mundo disputadas, a metade foi conquistada por duas seleções: Brasil e Itália.

Elas têm sido objeto de estudos de contrastes. Nas palavras de Kissinger, "o Brasil jogou o futebol mais bonito, enquanto a Itália se especializou em partir o coração de seus adversários." O Brasil, cinco vezes campeão, tem sido o faro atacante - Garrincha, Pelé, Ronaldinho e Robinho, fazendo o impensável.

A Itália, quatro vezes campeã, soube como parar jogos como nenhuma outra seleção - Gentile, Scirea, Baresi e Cannavaro, transformando a retranca numa arte sufocante - por vezes referida como "Catenaccio" ou " ferrolho" - e contra-atacando com a velocidade de um florete.

Como o jogo de Rafael Nadal no saibro, em Roland Garros, o jogo da Itália pode deixar seus adversários loucos. É possível notar quando eles começam a se desmanchar. Como observou Jean-Paul Sartre, "no futebol, tudo é complicado pela presença do outro time". Nisso, ele se parece com a diplomacia e a guerra. Os planos mais bem traçados raramente sobrevivem ao contato inicial com o inimigo.

Kissinger me contou, para minha surpresa, considerando suas inclinações políticas, que ele e Nelson Mandela eram próximos. Ele disse que Mandela havia estudado sua diplomacia na prisão e ficou fascinado a tal ponto que, quando visitou os EUA, após sua libertação, pediu uma reunião com Kissinger. "A conduta de Mandela foi extraordinariamente sábia", disse Kissinger, que promete ver as finais da Copa. "Ele é um dos grandes homens que conheci."

Esta Copa do Mundo, a primeira na África, é um tributo a essa grandeza conciliatória. É seguro dizer que a seleção da casa não vencerá, mas a África será beneficiada. E isso é importante. Podemos também ter um nome novo no troféu, mas primeiro, uma observação sobre a estranha inversão feita pelo Brasil.

O Brasil nunca teve a melhor defesa. Seu goleiro, Júlio Cesar, é o melhor do mundo. Maicon também. Os dois jogam na campeã europeia, a Inter de Milão, assim como o aguerrido zagueiro Lúcio. Uma vitória brasileira - e isso é sempre uma possibilidade - se basearia na parte do jogo que foi tradicionalmente relegada ou negligenciada.

Minha previsão? O vencedor está entre Espanha, Brasil, Holanda, Argentina e Itália. Azarão? A Sérvia. E se os EUA se derem bem, a tarefa do presidente Barack Obama será facilitada. Como Kissinger sabe, a indiferença americana ao futebol há muito é fonte de suspeitas globais. / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

É COLUNISTA DE POLÍTICA EXTERNAH

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