Se não dois, então um Estado

Projeto israelense de expansão de casas na Cisjordânia ajuda a enterrar as chances de um país exclusivamente judeu

O Estado de S.Paulo

08 de dezembro de 2012 | 02h03

Israel não esperou muito tempo para dar sua primeira resposta ao reconhecimento, por uma grande maioria, da Palestina como Estado observador não membro das Nações Unidas. Quase que imediatamente, anunciou a intenção de construir novos assentamentos para colonos judeus na área E-1, situada na Cisjordânia, a leste de Jerusalém.

Embora por vezes a construção de casas para os colonos judeus na área E-1 seja referida equivocadamente como "discutível" ou "controvertida", trata-se de uma violação da lei internacional como qualquer outro assentamento em outras partes da Cisjordânia e de Jerusalém Oriental.

Relevância. No entanto, o que torna esse novo projeto mais relevante é a localização da E-1, preenchendo o espaço vazio que existe entre Jerusalém Oriental e o maior assentamento de Israel, Ma'ale Adumim, um pouco mais a leste.

Esse espaço é o último elo que resta para os palestinos entre as áreas norte e sul da Cisjordânia. É também o ponto de contato entre as comunidades palestinas e entre Ramallah, Belém e Jerusalém Oriental, que, além de ser o ponto central cultural, religioso, social e econômico da vida palestina, um dia, se tornará a capital do Estado palestino.

Ao dar prosseguimento a seus planos de construção de colônias na região E-1, Israel estará infligindo um golpe mortífero na Cisjordânia e isolando a capital de um futuro Estado palestino do seu interior. E, assim, acabará de uma vez por todas com qualquer perspectiva de existência da Palestina. Com isso, por definição, retardará a possibilidade de uma solução de dois Estados para o conflito palestino-israelense.

Curiosamente, a Palestina reconhecida pelas Nações Unidas é apenas uma abstração. Aquela que Israel está agora prestes a estrangular é muito mais real, pelo menos à medida que o estrangulamento afetará materialmente a vida de centenas de milhares de pessoas.

Por mais forte que seja o golpe para as aspirações palestinas, os israelenses também pagarão um preço político igualmente pesado pelo plano do primeiro-ministro Binyamin Netanyahu. Ao extinguir a perspectiva de uma solução de dois Estados, o premiê de Israel também estará selando o destino de um Estado exclusivamente judeu.

Como políticos israelenses mais prudentes (Ehud Olmert entre eles) têm alertado, para manter a existência de Israel como um Estado judeu será preciso, fundamentalmente, perpetuar pelo menos a ideia de um Estado palestino, mesmo que apenas como ficção, por meio de infindáveis negociações de paz.

Uma vez que fique claro que a ficção desse Estado palestino não tem mais substância do que o Mágico de Oz - o que o projeto de construção na região E-1 garantirá -, aqueles palestinos que ainda não se renderam se comprometerão com a única alternativa viável: a solução de um único Estado, em que a noção de uma nação exclusivamente de judeus e uma outra só de palestinos dará lugar àquela que sempre foi a alternativa preferível, ou seja, um único Estado democrático e secular na Palestina que ambos os povos compartilharão como cidadãos em igual posição.

Igualdade. Uma campanha por direitos pela igualdade dos cidadãos em um único Estado é um projeto que os palestinos agora poderão acatar com o enorme apoio internacional que já obtiveram na área diplomática e da sua população, incluindo um boicote global e sanções cujo efeito Israel já está sentindo.

Para os palestinos, de qualquer modo, é infinitamente preferível um Estado dividido por dois, pela simples razão de que nenhuma solução de dois Estados que venha a ser proposta um dia conseguirá resolver a questão dos direitos de mais palestinos além daquela minoria que realmente vive no território onde esse Estado supostamente existirá.

A maioria dos palestinos vive no exílio, uma vez que foram expulsos de suas casas durante a criação de Israel, em 1948, ou são tratados como cidadãos de segunda classe em Israel, onde enfrentam enormes obstáculos como não judeus em um Estado que reserva todo o espectro de direitos somente para judeus.

Para os palestinos, o direito de retornar a seu lar e o direito de viver com dignidade e igualdade em sua própria terra não são menos importantes do que o direito de viver livre da ocupação militar.

Um Estado separado resolveria somente essa última questão, mas jamais haverá uma paz justa e duradoura que não preveja todos esses direitos, mesmo que isso signifique renunciar à perspectiva de um Estado palestino independente.

O que deve ser acrescentado, neste ponto, é que, se a solução de um único Estado for a última alternativa remanescente para uma paz justa e duradoura, os judeus israelenses pagarão o que seria o único preço no curto prazo em troca de muitos ganhos de longo prazo. Como os palestinos, eles perderão o sonho e a perspectiva de um Estado exclusivamente seu. Entretanto, também como os palestinos, conquistarão o direito de viver em paz. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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