Luis Villalobos / EFE
Luis Villalobos / EFE

'Se o real fosse valorizado, ninguém sairia', diz imigrante angolana

Crise econômica leva africanos que residiam no Brasil, como Ana, a se arriscar em um trajeto longo e perigoso rumo aos EUA

Carla Bridi, O Estado de S.Paulo

16 de junho de 2019 | 05h00

Após dois meses de viagem por terra, saindo de São Paulo, Ana, angolana que morou durante três anos no Brasil, está há uma semana em um centro comunitário de Ciudad Acuña, no Estado mexicano de Cohuila, aguardando a autorização de entrada nos Estados Unidos. 

Ela acredita que o fato de carregar a filha de 1 ano e 4 meses pode ter ajudado em certos trechos da viagem. “Quando a minha filha ficou doente, comecei a reclamar pelos meus direitos. Se você ficar quieta, as coisas não dão certo.”

As reclamações permitiram que a menina ficasse três dias internada em um hospital na Costa Rica. Uma amiga gestante não teve a mesma sorte no México – somente foi atendida após oferecer pagamento. “Eles sabem que estrangeiro carrega dólar”, recorda, indignada.

Foi por meio dos conselhos dos demais africanos que já fizeram a viagem que Ana juntou US$ 2,5 mil por mais de um ano para chegar aos EUA. “Tem de pagar transporte, comida, pessoas para mostrar o caminho na mata”, explica. 

A jornada até a fronteira de Coahuila com o Texas teve a primeira parada em Rio Branco, no Acre, passando por Peru, Equador, Colômbia, Panamá, Costa Rica, Nicarágua, Honduras, Guatemala e, então, México. Até 15 horas seguidas em viagens de ônibus passaram a ser comuns para Ana e a filha nos últimos meses. Ela também fez uma viagem de barco, uma travessia na água e passou uma semana em uma trilha na mata. 

“Você até chora. Pessoas morreram de fome ou se perderam. Graças a Deus que estamos aqui”, relata, aliviada. Mas até uma semana atrás, Ana e sua filha estavam presas em um centro de detenção de imigrantes no México, na fronteira com a Guatemala. Ficaram lá durante 14 dias. Foi um tratamento inédito em relação aos demais países da jornada. “Não podíamos sair nem para comprar comida. Se as pessoas reclamam, mandam voltar para seu país”, diz sobre o tratamento dos agentes. 

Agora, ela acredita que o pior já passou. Apesar de dormir a céu aberto, sendo alvo de mosquitos que atrapalham o sono, está animada, pois os funcionários do centro de imigração no México calculam que em um mês será possível entrar nos EUA desfrutando dos benefícios concedidos a refugiados. “Quando não se tem família lá, eles te dão uma casa e dinheiro para comprar comida, além de um documento que vale um ano. Sei que daqui a dois anos vou ficar bem.”

É grande a tentação de atravessar o Rio Bravo a nado e chegar ao destino mais rápido, como muitos fizeram, mas ao pensar na filha, a angolana repensa. “Quem entra pela água não tem direito a nada. Imagina se fiz tudo isso para nada?”

A história de Ana compõe uma estatística que tem aumentado nos últimos meses: imigrantes africanos viajam a países da América Latina para, em seguida, chegar por terra aos EUA.

Segundo os dados do governo americano, apesar de o número de africanos ainda ser ínfimo em comparação aos latino-americanos, houve um aumento de 44,5%, entre 2017 e 2018, no volume de prisões de africanos na fronteira com o México. O Brasil é um dos países que servem de ponto de partida. Alguns africanos somente passam pelo País, mas muitos que tinham planos de se estabelecer por aqui acabam mudando de ideia. 

“Se o real fosse valorizado, como o dólar, ninguém sairia daí. Temos família fora do Brasil e temos de enviar dinheiro em dólar”, afirma Ana. A justificativa da maioria de seus conhecidos que viajaram para os EUA é a mesma: desapontamento com a crise econômica brasileira e a desvalorização constante da moeda. 

Mesmo assim, o número de pedidos de refúgio no Brasil tem aumentado, segundo dados da Polícia Federal. De 2017 a abril deste ano, o Brasil recebeu mais de 239 mil solicitações de refúgio. 

Os venezuelanos permanecem na liderança, seguidos pelos haitianos. Os senegaleses vêm em terceiro lugar, com mais de 9 mil pedidos. O número ultrapassa as solicitações de refúgio acumuladas em seis anos, de 2010 a 2016, quando 7,2 mil senegaleses entraram com o pedido. 

Angola repete a tendência. Atualmente em quinto lugar da lista, acumula 6 mil solicitações desde 2017. O saldo de 2010 a 2016 é de pouco mais de 2 mil pedidos. Na lista das 24 nacionalidades que mais pediram refúgio no Brasil – de 2017 a abril de 2019 – 13 são africanas. 

Não há dados, entretanto, sobre o número de refugiados africanos que deixam o Brasil, mesmo regularizados. Dos mais de 400 mil cancelamentos de registros de migrantes de diversas nacionalidades, somente 1,1 mil são em decorrência de saída do País.

Segredo

A decisão de seguir viagem não costuma ser compartilhada com os demais africanos no Brasil, mesmo se planejada com antecedência. Depois de Ana parar de frequentar o instituto de apoio a refugiados em São Paulo no qual conheceu seu amigo Ectiandro da Cunha, também angolano, ele descobriu que ela havia partido por meio de uma postagem nas redes sociais. “Fiquei super preocupado. Quem quer continuar no Brasil não recomenda a ninguém passar por tudo isso”, defende. 

O camaronês Louis Le-prince dividia o apartamento com um colega em São Paulo e um dia, ao voltar do trabalho, percebeu que o amigo não estava lá, assim como seus pertences. “Eu paro de falar com a pessoa se descubro que ela quer ir embora assim. Um dia seu amigo está lá e, no outro, não está mais.”

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