Se obtiver reeleição, Karzai terá nova base de poder

Com menos apoio do Ocidente, presidente afegão voltou-se aos 'senhores da guerra'

Lourival Sant´Anna, O Estado de S. Paulo

21 de agosto de 2009 | 08h12

Se as pesquisas estiverem certas, o presidente afegão, Hamid Karzai, deve se reeleger por mais cinco anos, ainda que no segundo turno, dentro de um mês e meio. Mas seu segundo mandato não será a continuação do primeiro, num aspecto fundamental: sua base de poder. A eleição de ontem culminou uma guinada de Karzai, com sua reaproximação de ex-comandantes de milícias, os chamados "senhores da guerra".

 

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Até a invasão do Afeganistão pela União Soviética, em 1979, o poder local estava nas mãos dos líderes tribais. Pela tradição, as decisões importantes se tomavam reunindo esses líderes na chamada loya jirga, literalmente, "grande assembleia". A invasão soviética deslocou o poder local desses líderes para os comandantes mujaheddin, ou "guerreiros da liberdade", que resistiriam nos dez anos seguintes à ocupação. Depois de vitoriosos, armados até os dentes com ajuda dos EUA, da Arábia Saudita e do Paquistão, eles passaram a disputar poder entre si.

Criados pelo Paquistão para reunificar o Afeganistão sob influência paquistanesa, os taleban começaram a conquistar o país, pelo sul, em 1994, chegando a Cabul dois anos depois. Os mujaheddin passaram, então, a lutar contra os taleban, sob o comando do general tajique Ahmed Shah Massud.

Nesse ponto, um ex-militar e chefe de milícia que tinha estado do lado soviético, o general usbeque Abdul Rashid Dostum, juntou-se aos mujaheddin. Depois do 11 de Setembro, com apoio americano, eles derrubaram o Taleban.

No calor de sua participação na guerra contra os taleban, os mujaheddin tiveram presença de destaque na loya jirga que ungiu Karzai chefe do governo interino, e assumiram postos importantes. Mas seu passado de crimes de guerra logo começou a incomodar os governos americano e europeu que patrocinavam o novo regime. Pressionado, Karzai foi se afastando da maioria deles.

O último foi Dostum, denunciado no ano passado pelo procurador-geral - com apoio velado de Karzai - de manter um desafeto político em cativeiro. Diante da iminência de sua prisão, Dostum, ainda no cargo de chefe de gabinete do comandante do Estado-Maior, partiu para o exílio na Turquia.

Mas, no decorrer do ano passado,Karzai foi se sentindo abandonado pelo Ocidente, onde ganharam corpo as críticas à corrupção. O presidente George W. Bush, que tinha uma aliança quase incondicional com Karzai, foi substituído por Barack Obama, que tem sérias reservas ao desempenho do líder. O definhamento do apoio de Karzai no exterior coincidiu com o recrudescimento dos ataques do Taleban. A sensação de fragilidade o levou a reaproximar-se dos "senhores da guerra".

O economista Haroun Mir, que lutou com Massud e hoje dirige o Centro de Pesquisa e Estudos de Políticas do Afeganistão, acha que a comunidade internacional cometeu um "grande erro" ao lançar os chefes de milícias no ostracismo. "O país ainda não tinha um Exército e uma polícia fortes. O Taleban reagrupou-se e ocupou esse vazio." Para Wadir Safi, professor de ciência política da Universidade de Cabul, os "senhores da guerra" continuam armados e exercendo poder local por meio da força e do clientelismo. São parte da explicação do fracasso do Afeganistão em criar um Estado nacional forte.

Se no primeiro mandato Karzai simbolizou a conciliação e a união nacional, num eventual segundo governo ele pode vir a representar o oposto disso.

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