Se vencer, oposição japonesa quer mudar política externa

Líder do Partido Democrático, favorito na votação de domingo, sinaliza maior aproximação com China e vizinhos

Cláudia Trevisan, O Estado de S. Paulo

28 de agosto de 2009 | 07h43

 A provável vitória do oposicionista Partido Democrático do Japão (PDJ) nas eleições de domingo deverá provocar uma guinada na política externa do país, que buscará fortalecer os laços com os vizinhos asiáticos em detrimento da tradicional aliança com os Estados Unidos.

 

O discurso dos democratas reflete uma mudança nas aspirações de Tóquio, que parece se conformar a uma posição secundária em relação à nova potência emergente na Ásia, a vizinha China, da qual o Japão depende cada vez mais do ponto de vista econômico.

 

"Os acontecimentos recentes mostram claramente que a China, que tem de longe a maior população do mundo, vai se tornar uma das nações econômicas líderes no mundo, ao mesmo tempo em que continua a expandir seu poderio militar", escreveu o líder do PDJ, Yukio Hatoyama, em documento que apresenta a filosofia do partido e no qual também critica os efeitos da globalização.

 

Se as pesquisas de opinião estiverem certas, Hatoyama será o futuro primeiro-ministro do Japão, em uma eleição que promete impor uma derrota histórica ao governista Partido Liberal Democrático (PLD), que governa de maneira quase ininterrupta há 55 anos.

 

O líder do PDJ afirma que o Japão terá de se equilibrar entre a aliança militar com os americanos e a cada vez mais próxima relação econômica com a China. "Como o Japão deve manter sua independência política e econômica e proteger seus interesses nacionais quando estiver entre os EUA, que lutam para se manter como a potência dominante no mundo, e a China, que busca caminhos para se tornar dominante?", pergunta Hatoyama.

 

O analista americano Tobias Harris afirma que o Japão caminha para tornar-se uma potência média na região. Nessa condição, vai enfrentar os mesmos dilemas de conciliar a histórica aliança com os americanos e o relacionamento com a cada vez mais poderosa China. Hatoyama fala de maneira humilde do vizinho e reconhece que em um futuro "não muito distante" a economia chinesa será maior que a japonesa.

 

O PLD tem uma posição mais distante em relação a Pequim, que chegou a ser hostil durante o governo do popular Junichiro Koizumi (2001-2006). O ex-premiê fazia frequentes visitas ao santuário onde estão enterrados criminosos de guerra que cometerem atrocidades no período em que o Japão invadiu a China, nos anos 30 e 40.

Apesar de ressaltar que a aliança com os americanos continuará a ser fundamental para a diplomacia japonesa, Hatoyama afirma que o foco de seu país deve ser a região onde está.

 

Localizado mais à esquerda no espectro político que os liberais, o PDJ tem um discurso crítico à ação desenfreada das forças de mercado e de defesa de atividades econômicas tradicionais contra o avanço da globalização. "Como podemos colocar um fim ao irrestrito fundamentalismo de mercado e capitalismo financeiro, desprovidos de moral e moderação, para proteger os recursos e modo de vida de nossos cidadãos?", pergunta o líder do PDJ.

 

O slogan "igualdade, liberdade, fraternidade", que inspirou a Revolução Francesa há 220 anos, tem lugar de destaque na retórica antiglobalização dos democratas. "Sob o princípio da fraternidade, não deixaremos à mercê das ondas da globalização as políticas relacionadas à vida e segurança humanas, como agricultura, meio ambiente e medicina", ressalta Hatoyama.

 

O PDJ promete reduzir o gasto anual em grandes obras públicas de US$ 84 bilhões para US$ 70 bilhões e transferir os recursos para áreas sociais, como educação e apoio às famílias com crianças. Também defende o fim da cobrança de pedágios nas rodovias.A grande questão é saber se as propostas são viáveis financeiramente, pois o Japão possui um elevado déficit público e tem pouca margem para corte de impostos e aumento de gastos.

 

Ex-integrante do PLD, Hatoyama passou para a oposição em 1993 e participou da criação do PDJ cinco anos mais tarde. Apesar de seu discurso reformista, ele compartilha com o atual premiê, Taro Aso, o fato de pertencer a uma tradicional família de políticos, algo que está longe de ser bem visto no Japão de hoje.

 

Prestes a sofrer uma derrota avassaladora na eleição de domingo, Aso reconheceu ontem a crescente insatisfação da população com seu partido, que teria falhado na apresentação das "virtudes do conservadorismo".

 

Pesquisa divulgada pelo Asahi, jornal com a segunda maior circulação do país, prevê que o PDJ de Hatoyama poderá conquistar 320 das 480 cadeiras da Câmara dos Representantes, o que lhe dará o poder de aprovar sozinho propostas legislativas que exigem maioria qualificada de dois terços.

 

O governista PLD verá seu número de representantes diminuir dos atuais 300 para 100, segundo a pesquisa. A oposição democrata já tem maioria na Câmara Alta desde 2007, quando venceu a primeira grande eleição desde a criação do PDJ, em 1998.

Tudo o que sabemos sobre:
Japãoeleições

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.