AFP / HECTOR RETAMAL
AFP / HECTOR RETAMAL

Presidente do Haiti responsabiliza oposição por manifestações e diz que eleição ocorrerá

Manifestantes queimaram seções eleitorais na segunda-feira, após candidato opositor anunciar retirada da disputa alegando fraude no processo eleitoral

O Estado de S. Paulo

19 Janeiro 2016 | 11h21

PORTO PRÍNCIPE - Um dia após o candidato opositor à presidência do Haiti, Jude Calestin, oficializar que se retiraria da disputa, sob a alegação de que as autoridades eleitorais favoreceram o partido governista, o presidente Michel Martelly acusou a oposição pela crise política e disse que o segundo turno da eleição ocorrerá.

"Tudo está pronto para a realização das eleições e a transição democrática do dia 7 de fevereiro", afirmou Martelly após iniciar a XXI reunião do Conselho de Ministros da Associação de Estados do Caribe (AEC). 

Nesta terça-feira, 19, devem ocorrer novos protestos exigindo a suspensão do segundo turno presidencial, marcado para o próximo domingo. Na segunda-feira, cerca de 2 mil manifestantes com pedras nas mãos tomaram as ruas da capital Porto Príncipe para protestar contra as supostas irregularidades no processo eleitoral. Várias sessões eleitorais foram queimadas.

Celestin, um engenheiro formado na Suíça de 53 anos, ficou em segundo lugar no primeiro turno da eleição no empobrecido país caribenho, em outubro, derrotado pelo exportador de bananas Jovenel Moise, de 47 anos, candidato do partido no poder.

No sábado, Celestin já havia criticado o processo eleitoral no país. "O que está acontecendo no Haiti é uma seleção, não uma eleição", disse o opositor.

Nesta terça, o Senado deve se reunir e pedir que o processo eleitoral seja suspenso e os protestos de rua, encerrados. A eleição presidencial no Haiti já foi adiada duas vezes. A data inicial estava prevista para 27 de dezembro de 2015.

O impasse dessa vez está no fato de a lei eleitoral haitiana prever que o candidato que renuncie será substituído pelo terceiro mais votado no primeiro turno. O problema é que Moise Jean Charles também já declarou não ter intenção de concorrer em razão das fraudes no processo.

As eleições e as transferências de poder no Haiti são há muito tempo assoladas pela instabilidade, e observadores internacionais disseram que a votação de outubro deste ano foi relativamente calma. No entanto, vários dos 54 candidatos alegaram fraude a favor de Moise.

Na segunda-feira, Moise pediu aos eleitores que comparecessem ao segundo turno, afirmando aos jornalistas que o pleito era um  "ponto de virada" no fortalecimento da democracia no Haiti.

Entre os grupos de oposição estão o partido Plataforma Pitit Desalin e partidários de Celestin.

Revolta. Acompanhada por um homem que tocava trompete, a multidão de milhares de pessoas se tornou cada vez mais agitada ao sair dos bairros pobres em direção ao centro de Porto Príncipe na segunda-feira. Alguns manifestantes queimaram veículos, jogaram pedras e atacaram um posto de gasolina.

"Se tivermos que pegar em armas, faremos isso. Eu fiz isso no passado", disse Jaques Madiou, um morador de favela de 40 anos que disse ter participado da luta armada depois que o presidente Jean-Bertrand Aristide, um ex-padre esquerdista, foi forçado a deixar o poder em 2004.

"Meu desejo é que quando meu filho de 9 anos tiver idade para votar este país possa finalmente organizar eleições decentes e calmas", afirmou o professor Elisme Nerius.

Diversas cidades do Haiti estavam com o policiamento reforçado nesta terça. Com os protestos, a chegada de cruzeiros de turismo foi cancelada. /EFE, REUTERS e AP

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