Youssef Rabie Youssef / EFE
Youssef Rabie Youssef / EFE

Secretário de Defesa dos EUA renuncia após Trump anunciar retirada de soldados da Síria

James Mattis afirmou que o presidente 'merecia alguém para comandar o Pentágono que esteja mais bem alinhado com seus pontos de vista'; ele deixa o governo em fevereiro

Redação, O Estado de S.Paulo

20 Dezembro 2018 | 22h06

WASHINGTON - O secretário de Defesa dos Estados Unidos, James Mattis, pediu demissão do governo de Donald Trump nesta quinta-feira, 20, afirmando que o presidente “merecia alguém para comandar o Pentágono que esteja mais bem alinhado com seus pontos de vista”. A renúncia é um sinal do descontentamento de Mattis com a decisão de Trump de retirar as tropas americanas da Síria.

Mattis disse que iria deixar o governo no dia 28 de fevereiro para dar tempo para que uma substituição fosse identificada e confirmada pelo Senado.

A renúncia do general aposentado surpreendeu Washington e ocorreu um dia depois de o presidente americano desafiar as recomendações do Pentágono e de seus conselheiros, incluindo Mattis, e chocar aliados americanos ao anunciar a retirada dos soldados americanos da Síria. Trump declarou “vitória sobre o Estado Islâmico”, apesar de o Pentágono e o Departamento de Estado por meses dizerem que a luta contra o grupo na Síria não acabou.

Mattis apontou algumas dessas diferenças em uma carta de renúncia que ele apresentou à Casa Branca nesta quinta-feira. O general reformado enfatizou que os Estados Unidos obtêm sua força de suas relações com os aliados e devem tratá-los com respeito. Ele disse que o país também deve ser “claro sobre as ameaças, incluindo grupos como o Estado Islâmico”.

"Minhas opiniões sobre tratar aliados com respeito e também estar atento a ambos os atores malignos e concorrentes estratégicos são fortemente mantidos e informados por mais de quatro décadas de imersão nessas questões", escreveu Mattis. “Devemos fazer todo o possível para promover uma ordem internacional que seja mais propícia à nossa segurança, prosperidade e valores, e nos fortalecemos nesse esforço pela solidariedade de nossas alianças.”

Mattis e os conselheiros de Segurança Nacional têm duas preocupações principais. Primeiro, há sinais de um paulatino ressurgimento do EI, um reagrupamento militar ordenado que, se não for sufocado, pode criar uma nova onda de conquistas territoriais. Nos últimos dois anos, o EI perdeu cerca de 90% do território que havia conquistado entre 2014 e 2015. Mas, segundo o Pentágono, o EI tem 30 mil soldados entre a Síria e o Iraque.

A segunda preocupação são os aliados americanos. A retirada seria uma traição aos curdos das Forças Democráticas da Síria, que tiveram papel fundamental na expulsão do EI de seus redutos no país. Sem a proteção americana, os curdos ficariam vulneráveis a ofensivas militares da Turquia, que os associa à guerrilha separatista curda turca do PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão).

Os curdos almejam criar um Estado próprio numa vasta extensão territorial que inclui partes da Síria, do Iraque, do Irã, da Turquia e da Armênia. Eles são organizados em diversos grupos e países.

Hoje, as Forças Democráticas da Síria, lideradas pelas Unidades de Proteção do Povo (YPG) curdas, controlam 30% do território sírio. Combatê-las nunca foi uma prioridade para o regime do sírio Bashar Assad. Para Damasco, a prioridade é acabar com os grupos de oposição jihadistas, apoiados pela Arábia Saudita.

Nos últimos dias, o presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, prometeu lançar uma nova ofensiva contra os curdos na Síria. O objetivo da Turquia é estabelecer uma “zona segura” entre o território controlado pelos curdos e a fronteira turca. O ataque poderia colocar as tropas dos EUA em perigo, especialmente se eles defenderem seus aliados curdos. Em vez de lidar com o dilema, Trump pode ter pensado que é melhor sair agora. / NYT e W.P.

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