AP Photo/Richard Drew
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Aliados de Trump na Casa Branca negam autoria de artigo sobre resistência no governo

Vice-presidente Mike Pence e secretário de Estado Mike Pompeo dizem não ter escrito texto contra presidente americano e criticam tanto o autor anônimo quanto o 'New York Times' por publicar o artigo

O Estado de S.Paulo

06 Setembro 2018 | 08h50
Atualizado 06 Setembro 2018 | 21h05

WASHINGTON - A divulgação de um editorial anônimo pelo jornal The New York Times afirmando existir uma “resistência silenciosa” dentro da cúpula do governo Donald Trump levou o presidente dos EUA a exigir a revelação do nome do funcionário que publicou o artigo. Trump questionou se um artigo pode ser considerado uma “traição”, criticou o jornal por publicar a coluna “covarde” e pediu que esclareça se o funcionário existe.

Em meio a especulações frenéticas sobre quem teria escrito o artigo, mais de uma dúzia de funcionários de alto escalão do governo Trump negaram ser os autores do texto. “Venho de um lugar em que se você não está em posição de realizar o projeto do chefe, resta apenas uma opção: ir embora”, afirmou o secretário de Estado americano, Mike Pompeo. O secretário de Defesa, Jim Mattis, e o vice-presidente Mike Pence, também se apressaram em afirmar que não eram os autores. 

O caso, sem precedentes na história moderna dos EUA, é mais uma prova da confusão dentro da Casa Branca desde que Trump assumiu. O artigo foi publicado na quarta-feira pelo New York Times, em meio às revelações feitas em um livro que será lançado neste mês sobre os bastidores da Casa Branca. 

Em Fear (Medo, em inglês), o jornalista Bob Woodward, que com Carl Bernstein revelou o escândalo que culminaria no fim do governo Richard Nixon, em 1974, o Watergate, descreve uma Casa Branca sem rumo e um presidente afoito e irascível. 

Há uma semana, Trump vem vociferando e criticando Woodward no Twitter. Na quinta-feira, 6, ele voltou sua artilharia verbal contra a publicação do artigo e contra o New York Times. O governo instaurou uma investigação para tentar identificar o funcionário anônimo por meio de análise de textos. 

“Traição?!”, escreveu Trump em sua conta no Twitter. “Existe realmente este chamado ‘alto funcionário do governo’ ou é apenas o falido New York Times com outra de suas fontes falsas?”, questionou. “Se este covarde anônimo realmente existe, o Times deve, por razões de Segurança Nacional, entregar ele ou ela ao governo de imediato.”

 


O artigo apresenta relatos de uma “resistência silenciosa” na Casa Branca. Diz que “heróis não reconhecidos” estão “trabalhando de forma diligente para frustrar partes da agenda de Trump e suas piores inclinações”. Descreve a liderança do presidente como “impetuosa, mesquinha e ineficaz” e diz que “os adultos na sala” se esforçam para evitar o desastre. 

O texto sugere que Trump não está totalmente no comando da Casa Branca e está cercado por conselheiros que o consideram tão volátil e temperamental a ponto de roubarem documentos para impedi-lo de emitir ordens precipitadas. 

Segundo o Washington Post, Trump teria tido um acesso de fúria depois de ler o artigo. Conselheiros e assessores passaram o dia de quinta-feira, 6, com Trump no Salão Oval. O presidente americano teria ordenado uma investigação minuciosa para encontrar o autor do artigo.

O embate entre Trump e seus conselheiros tem sido um tema recorrente. O secretário de Justiça, Jeff Sessions, já ignorou os pedidos públicos de Trump para colocar rédeas na investigação conduzida pelo promotor especial Robert Mueller sobre o conluio entre a campanha de Trump e a Rússia. Quando o presidente declarou no Twitter que proibiria soldados transgêneros nas Forças Armadas, Sessions rejeitou a possibilidade.

O senador Bob Corker, republicano do Tennessee e crítico de Trump, disse no ano passado que os assessores do presidente tentavam impedi-lo de tomar decisões equivocadas. “Sei que todos os dias há uma tentativa de contê-lo. É uma pena que a Casa Branca tenha se tornado uma creche para adultos”, disse Corker. / NYT e W.POST

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