Mike Segar/AFP
Mike Segar/AFP

Secretário de Estado dos EUA acusa europeus de se alinharam aos aiatolás do Irã

EUA ativam na ONU controverso procedimento para exigir o restabelecimento das sanções internacionais contra o Irã, acusando o país de ter violado o acordo nuclear de 2015; Rússia diz que governo americano vive em 'planeta fictício'

Redação, O Estado de S.Paulo

20 de agosto de 2020 | 18h12

NAÇÕES UNIDAS - Irritado com a posição de França, Alemanha e Reino Unido de se oporem à iniciativa dos Estados Unidos para renovar um embargo de armas ao Irã na ONU, o secretário de Estado americano, Mike Pompeo, afirmou que os europeus estavam se alinhando aos aiatolás em Teerã em vez de honrar sua aliança com Washington. 

Os EUA ativaram nesta quinta-feira, 20, nas Nações Unidas um controverso procedimento com resultado incerto para exigir o restabelecimento das sanções internacionais contra o Irã, acusando o país de ter violado o acordo nuclear de 2015.

"Nossos amigos na Alemanha, França e Reino Unido me disseram em privado que não querem que se levante o embargo de armas contra o Irã", disse Pompeo na sede das Nações Unidas, em Nova York. "E ainda assim eles escolheram se alinhar com os aiatolás ao não votar a favor da resolução dos EUA para estendê-lo (embargo)", acrescentou.

A embaixadora americana na ONU, Kelly Craft, "notificou o Conselho de Segurança" sobre um "descumprimento significativo por parte do Irã de seus compromissos", previstos no texto que supostamente impedia a Teerã adquirir a bomba atômica. 

A argumentação foi apresentada em uma carta entregue pessoalmente por Pompeo ao embaixador da Indonésia, Dian Triansyah Djani, que preside o Conselho de Segurança este mês. O Conselho de Segurança da ONU é composto por 15 membros - 10 rotativos e 5 permanentes (EUA, China, Rússia, França e Reino Unido). 

Os americanos argumentaram que os EUA precisam reativar esse mecanismo, chamado "snapback", reivindicando seu estatuto de "participante" do acordo nuclear iraniano de 2015 (JCPoA). 

Mas essa interpretação é juridicamente contestada, já que o presidente americano, Donald Trump, retirou seu país

do acordo em 2018 e voltou a impor e até endurecer sanções unilaterais ao Irã. 

Segundo um comunicado oficial, França, Alemanha e Reino Unido destacaram exatamente esse fato, de que os EUA deixaram o pacto, para rejeitar a proposta. "(Esses países) Não podem aceitar essa iniciativa, incompatível com nossos atuais apoios ao JCPoA", afirma o comunicado divulgado pela chancelaria desses três países.


A Rússia demonstrou que seguirá os europeus e se oporá à medida dos EUA que, segundo o vice-embaixador da Rússia na ONU, Dmitri Polianski, parecem viver em um planeta fictício. "Parece que existem dois planetas. Um fictício onde os EUA fingem que podem fazer o que quiserem sem 'bajular' ninguém, romper e fechar negócios, mas ainda se beneficiar dele, e outro onde o restante do mundo vive e onde o direito internacional e a diplomacia reinam".

Em tese, este procedimento complexo, previsto na resolução que ratificou o acordo de 2015, deveria permitir o retorno do restante das sanções internacionais em 20 dias de forma praticamente automática. Mas segundo vários observadores, o embaixador indonésio poderia, após consultar outros membros do Conselho, arquivar a petição americana./AFP e AP 

 

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