AP Photo/Andrew Harnik
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Secretário de Justiça acusa Trump de dificultar seu trabalho com seus tuítes

Promotores americanos estão preocupados com possível aumento das pressões sobre eles após a intervenção de William Barr para diminuir a sentença de um ex-assessor de Trump

Redação, O Estado de S.Paulo

13 de fevereiro de 2020 | 22h55

WASHINGTON - O secretário de Justiça dos Estados Unidos, William Barr, acusou nesta quinta-feira, 13, Donald Trump de dificultar seu desempenho à frente do Departamento de Justiça, dizendo que os tuítes do presidente americano estavam tornando "impossível" o seu trabalho. 

"Tenho problema com alguns dos tuítes", disse Barr em entrevista à ABC News, acrescentando: "Não consigo fazer o meu trabalho aqui no departamento com constantes comentários que me enfraquecem".  "Acredito que seja a hora de deixar de tuitar sobre casos do Departamento de Justiça", finalizou.  

No próximo mês, Barr deve testemunhar diante do Congresso sobre a decisão, supostamente sob pressão de Trump, de rejeitar o que foi resolvido por seus próprios promotores e buscar uma sentença de prisão mais leve para o veterano consultor político republicano Roger Stone, que foi condenado por mentir em depoimento ao Congresso e manipular testemunhas.

Quatro promotores do departamento pediram demissão na última terça-feira em aparente protesto por interferência política. 

Trump nega que seus tuítes sobre o caso Stone, nos quais critica a sentença original de 87 a 108 meses de prisão dada a Stone e elogia Barr depois que a sentença foi reduzida pela metade, pressuponham interferência política.  

Questionado sobre ter falado com Trump sobre o caso Stone, Barr respondeu: "Nunca". "Estou feliz em dizer que, de fato, o presidente nunca me pediu nada sobre nenhum caso penal", ressaltou. 

Quanto a se estava preparado para a repercussão que terá caso fale algo contra o presidente, Barr respondeu: "Com certeza".  "Não serei intimidado ou influenciado por ninguém", disse, "seja pelo Congresso, pelos jornais ou pelo presidente, vou fazer tudo que considero ser o certo".  

Promotores temem pressões de Trump 

Durante décadas após Watergate, a Casa Branca tratou o Departamento de Justiça com luvas de pelica, temendo que qualquer coisa que se assemelhasse a interferência política pudesse ressuscitar o fantasma do secretário de Justiça John Mitchell ajudando o presidente Richard Nixon em sua conspiração criminosa com fins políticos.

Em 2001, Barr, falando de seu primeiro termo como secretário de Justiça sob o presidente George W. Bush, descreveu a proteção que seu departamento gozava na era pós-Watergate: “Ninguém mexia com ele, ninguém interferia, ninguém intervinha”.

Pulando para 2020, Barr é novamente secretário de Justiça. Mas o estilo arrasa-quarteirão do presidente Trump demoliu a ante sacrossanta rede de proteção. A intervenção de Barr para diminuir a sentença Stone levou os quatro promotores a se afastarem.

Para promotores de todo o país, o caso Stone levantou novas preocupações sobre o que estaria por vir. Até agora, segundo eles, o trabalho deles não vinha sendo afetado pelas políticas do momento. Hoje, porém, promotores de carreira estão preocupados com um possível aumento das pressões sobre eles.

“Em essência, a liderança do Departamento de Justiça assumiu a função de sentenciar em matéria criminal politicamente sensível, revertendo a posição uniformemente aceita de que isso cabe aos promotores de carreira”, explicou David Laufman, ex-chefe do setor de contrainformações do Departamento de Justiça.

A saída dos promotores é um sinal claro, disse Greg Brower, ex-procurador que já chefiou o escritório do FBI para assuntos do Congresso. “Eles discordam do modo como a cúpula do Departamento de Justiça vem intervindo". “Além disso”, continuou Brower, “entendem que considerações éticas forçaram sua decisão." 

Promotores de todo o país disseram estar cautelosos ao trabalhar em qualquer caso que possa chamar a atenção de Trump, e o episódio com Stone aprofundou essa preocupação. Eles também temem que Barr não os apoie em casos envolvendo política.

Para Trump, sistema legal tem preconceito contra ele e sua equipe

Para aliados de Trump, como chefe do Executivo, ele tem todo o direito de supervisionar investigações, mesmo aquelas nas quais tenha interesse pessoal. Ele estaria tentando corrigir os excessos de um sistema legal que tem preconceito contra ele e sua equipe, disseram. Os aliados apontam com frequência o caso de Carter Page, ex-assessor de campanha de Trump, acusado de ligações com a Rússia.

Especialistas em direito dizem que Trump abalou normas que há décadas mantêm presidentes sob controle. Ele teria solapado a confiança do público quanto ao cumprimento de leis federais, dando no mínimo a impressão de que processos criminais estão agora sujeitos à influência política da Casa Branca.    

O principal foco de Trump ao misturar política e Justiça tem sido o escritório da procuradoria federal em Washington, que tradicionalmente supervisiona processos delicados, incluindo aqueles que envolvem segurança nacional, espionagem e corrupção política. 

Até recentemente, a procuradoria era chefiada por Jessie K. Liu, que supervisionou o processo contra Stone. Barr manobrou para desalojá-la do cargo e pôr em seu lugar um aliado de longa data poucas semanas antes da condenação.

No fim do ano passado, Trump nomeou Liu para um alto cargo no Departamento do Tesouro. Ela inicialmente dissera a colegas que permaneceria na procuradoria até que o Senado confirmasse sua nomeação para o novo cargo. Mas Liu e Barr concordaram em que ela sairia no começo deste ano, abrindo a vaga para outra pessoa, caso a confirmação demorasse, segundo fontes que acompanharam o caso. Em janeiro, ela começou no Tesouro como conselheira do secretário Robert Mnuchin.

Desconfiança dos conservadores 

Liu era vista com desconfiança pelos conservadores. Mais recentemente, um site conservador criticou sua nomeação para o Departamento do Tesouro, acusando-a de fazer parte do “estado profundo”e de ter feito um acordo com James Wolfe, o ex-assessor do Senado que se declarou culpado de mentir ao FBI sobre seus contatos com repórteres.  

Barr nomeou Timothy Shea, homem de sua confiança, para sucessor temporário de Kiu na procuradoria, em lugar de deixar como interina a principal assessora de Liu.

Shea tomou posse em 3 de fevereiro, trazendo David Metcalf, outro homem de confiança de Barr, para ser seu chefe de gabinete. Metcalf causou imediatamente discórdia ao ocupar a sala de uma promotora para ficar mais próximo de Shea.

Uma semana depois, Shea e Metcalf se viram ante um dilema quando os quatro promotores trabalhando no caso Stone recomendaram uma sentença de 7 a 9 anos de prisão, acompanhando diretrizes federais.  

Na segunda-feira, segundo fontes ligadas ao assunto, Shea disse aos promotores que queria uma sentença menor e ainda recomendou-lhes que fossem discretos ao se desviarem das diretrizes federais. Três dos quatro ameaçaram sair do caso, o que fez Shea recuar, até que Barr e o subsecretário de Justiça, Jeffrey A. Rosen, tomaram as rédeas de suas mãos.

Ao mesmo tempo, Trump suspendeu a nomeação de Liu para o Tesouro. O secretário Mnuchin disse numa comissão do Senado que ele só soube da decisão na segunda-feira, e não entrou em detalhes.

Intervenção no caso Stone afeta procuradoria

O moral afundou no escritório da procuradoria federal de Washington após a intervenção no caso Stone. Promotores manifestaram ceticismo quanto a altos funcionários do Departamento de Justiça não terem sido advertidos sobre a recomendação presidencial.

Na noite de quarta-feira, Shea disse a membros de sua equipe que respeitava o trabalho deles e prometeu “dar o melhor” de si para apoiá-los. Também na quarta-feira, a Comissão de Justiça da Câmara anunciou que Barr concordou em testemunhar, em  31 de março.

O escritório de Washington trabalha com várias outras acusações ligadas à política, entre elas o vazamento de informações a repórteres pelo ex-diretor do FBI James Comey e a possibilidade de seu ex-vice Andrew McCabe ter mentido a um inspetor geral. O escritório também trata da aplicação de sentença a Michael Flynn, ex-conselheiro de segurança nacional de Trump.

O caso Stone ganhou destaque nos últimos dias em parte porque Tucker Carlson, âncora da Fox News e seu amigo de longa data, vêm abordando o assunto em seu programa. “Carlson está usando seu prestígio para defender o amigo Roger Stone do tratamento arbitrário e seletivo de que vem sendo vítima”, disse Sam, Nunberg, um dos mais antigos conselheiros políticos de Trump. O presidente já deixou claro que concorda. / AFP e NYT

* TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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