John Moore/Getty Images/AFP
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Trump diz que rejeitará lei migratória moderada; secretário defende separação de pais e filhos

Câmara dos Deputados deve votar duas propostas sobre o tema na semana que vem; durante um discurso para policiais, Jeff Sessions sugeriu que Deus apoia o governo americano em sua política para imigrantes

O Estado de S.Paulo

15 de junho de 2018 | 10h56
Atualizado 15 de junho de 2018 | 12h03

WASHINGTON - O presidente dos EUA, Donald Trump, disse nesta sexta-feira, 15, que não vai assinar um projeto de lei migratória anunciado pelos republicanos no dia anterior. A Câmara dos Deputados deve votar duas propostas sobre o tema na semana que vem.

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Um deles foi elaborado pelo presidente da Comissão de Justiça, Bob Goodlatte, e o outro é uma proposta de compromisso que os líderes do Partido Republicano negociaram com os moderados e os conservadores. “Estou analisando as duas”, disse Trump durante uma entrevista ao programa “Fox and Friends” nesta manhã. “Certamente, eu não assinaria a mais moderada.”

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A decisão do presidente é particularmente significativa, já que os líderes do Partido Republicano afirmaram que estavam trabalhando com funcionários do governo em um compromisso para garantir que o magnata o assinasse.

O presidente da Câmara dos Deputados, Paul Ryan, disse aos membros do partido no começo da semana que ele havia conversado com Trump sobre a estratégia legislativa e que ele estava de acordo.

Um rascunho do projeto que circulava na quinta-feira previa US$ 25 bilhões para a construção do muro na fronteira com o México, além de um novo visto que daria aos jovens imigrantes ilegais a possibilidade de obter residência permanente e eventual cidadania nos EUA.

A medida também acabaria com a prática da gestão Trump de separar crianças imigrantes de suas famílias quando capturadas na fronteira ao permitir que elas fiquem detidas com seus pais. “Odeio que as crianças sejam levadas embora”, disse o presidente nesta sexta-feira.

Bíblia

O secretário de Justiça dos EUA, Jeff Sessions, usou um verso da Bíblia na quinta-feira para defender a política migratória de seu departamento, que prevê processar todos que cruzarem a fronteira do México, sugerindo que Deus apoia o governo americano em sua decisão de separar pais imigrantes de seus filhos.

“Cito a vocês o apóstolo Paulo e sua ordem clara e sábia em Romanos 13: para obedecer às leis do governo porque Deus ordenou o governo para seus propósitos”, disse Sessions durante um discurso para agentes policiais em Fort Wayne, em Indiana. “Processos ordenados e legais são bons em si. A aplicação da lei de forma consistente e justa é uma coisa boa e moral e que protege os fracos e legítimos.”

Funcionários do governo ocasionalmente se referem à Bíblia como uma linha de argumento, a exemplo dos republicanos que citaram Tessalonicenses 2 (“se um homem não trabalhar, ele não deve comer”) para justificar requisitos mais rigorosos para rótulos de alimentos.

Mas o verso citado por Sessions, Romanos 13, é uma escolha incomum. “Há dois momentos da história americana quando Romanos 13 foi evocado”, afirmou John Fea, professor de história americana no Messiah College, na Pensilvânia. “Um deles é durante a Revolução Americana, quando citado pelas pessoas que se opunham ao movimento.”

O outro, de acordo com Fea, “foi nos anos 1840 e 1850, quando Romanos 13 foi evocado por defensores do Sul ou da escravidão para afastar os abolicionistas que acreditavam que a ela era algo errado. Quero dizer que este é o mesmo argumento que os donos de escravos sulistas e defensores deste modo de vida usavam.”

Em maio, Sessions anunciou uma política de tolerância zero a partir da qual o Departamento de Justiça começaria o processar todos os que cruzassem a fronteira sul dos EUA. Parte da política determinava que os imigrantes que viajavam com crianças ou com menores de idade desacompanhados acabariam detidos. A lei migratória americana acusa os adultos de crime, mas não as crianças, o que significa que eles são mantidos separados uns dos outros.

Segundo a agência de notícias Associated Press, a Proteção das Alfândegas e Fronteiras dos EUA constatou que em duas semanas do mês de maio mais de 650 crianças foram separadas de seus pais.

Alguns grupos religiosos e indivíduos também já citaram a Bíblia, mas para defender o lado oposto. “Esmagadoramente, as Escrituras defendem que as famílias sejam mantidas juntas”, disse Gabriel Salguero, presidente da Coalizão Evangélica Latino-Nacional.

“As Escrituras prezam pela defesa das famílias. Sendo evangélicos, temos uma doutrina de ser pró-valores familiares. A Bíblia nos convida a ser pró-família, e pessoalmente acho profundamente lamentável que estejamos separando crianças de seus pais na fronteira ou em qualquer lugar.”

Na tarde de quinta-feira, a Seção de Imigrantes e Refugiados do Vaticano publicou em sua conta no Twitter um verso do Deuteronômio.

Em uma reunião da Conferência de Bispos Católicos dos EUA realizada na quarta-feira, os líderes católicos do país condenaram fortemente as políticas migratórias do governo de Donald Trump e as qualificaram como imorais. Um bispo chegou a sugerir que os católicos que ajudam a conduzir as políticas no Departamento de Justiça estão violando sua fé e deveriam talvez ter a Comunhão negada.

A porta-voz da Casa Branca, Sarah Huckabee Sanders, disse durante um briefing que ela não tinha conhecimento sobre os comentários de Sessions, mas apoiava a linha de pensamento dele. “Posso dizer que a aplicação da lei é muito bíblica. Na verdade, isso é repetido várias vezes ao longo da Bíblia”, afirmou ela. “É uma política moral seguir e aplicar a lei.” / WASHINGTON POST

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