AP Photo/Susan Walsh
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Após omitir reunião com russo, titular da Justiça deixa apuração sobre Moscou

Revelação de encontro com embaixador da Rússia leva Jeff Sessions, peça-chave no gabinete de Trump, a se declarar impedido de atuar em casos que envolvam a suspeita de influência do Kremlin na eleição presidencial; democratas ainda pressionam por renúncia

Cláudia Trevisan, Correspondente / Washington, O Estado de S. Paulo

02 de março de 2017 | 18h49
Atualizado 02 de março de 2017 | 21h14

WASHINGTON - No centro da mais recente crise do governo de Donald Trump provocada por contatos com a Rússia, o secretário de Justiça, Jeff Sessions, disse nesta quinta-feira, 2, que vai se declarar impedido para atuar em qualquer investigação sobre a campanha eleitoral do presidente. Apesar da decisão, a oposição democrata manteve a pressão por sua renúncia, com o argumento de que ele mentiu sob juramento em sua sabatina no Senado.

Em janeiro, ele disse aos parlamentares que não havia tido nenhum encontro com autoridades russas nos meses anteriores à eleição. Na quarta-feira, no entanto, o Washington Post revelou que Sessions se reuniu em seu gabinete no Senado com o embaixador russo, Serguei Kislyak, em setembro, dois meses antes de os americanos irem às urnas.

Sessions é o segundo integrante do primeiro escalão do governo Trump a ter problemas em razão de contatos com o diplomata. Michael Flynn deixou o cargo de conselheiro de Segurança Nacional da Casa Branca há 18 dias por ter ocultado conversas telefônicas que teve com Kislyak em dezembro. Nelas, quais discutiu sanções impostas pelo governo Barack Obama à Rússia em resposta à interferência do país nas eleições americanas.

As medidas foram aplicadas depois que serviços de inteligência americanos concluíram que Moscou atuou na disputa para prejudicar a candidatura de Hillary Clinton. O assunto é objeto de uma investigação do FBI, subordinado a Sessions. Se o caso prosperar e levar ao indiciamento de integrantes do governo, isso pode demandar decisões do secretário de Justiça. Com o anúncio desta quinta, Sessions se comprometeu a manter distância.

Ao se declarar impedido, o secretário atendeu a demandas de parlamentares do Partido Republicano, que se viram mais uma vez na incômoda situação de ter de defender o governo em razão de contatos de seus integrantes com Moscou. Mas a oposição continuou a exigir seu afastamento. “Depois de mentir sob juramento ao Congresso sobre suas comunicações com os russos, o secretário de Justiça deve renunciar”, disse a líder do partido na Câmara dos Deputados, Nancy Pelosi.

O presidente Trump disse na tarde de quinta que tinha “total” confiança em Sessions. Em sua opinião, ele não deveria se declarar impedido para atuar na investigação relativa à campanha eleitoral.

O cientista político Cal Jillson, da Southern Methodist University, disse que o secretário de Justiça ficou em uma situação “extremamente difícil”, na qual o seu afastamento dos casos se tornou inevitável. A dúvida agora é se isso será suficiente para garantir sua sobrevivência no cargo.

Segundo Jillson, o episódio é negativo para Trump e o Partido Republicano, por levantar o espectro da Rússia de novo e desviar a atenção da agenda do governo.

Em entrevista coletiva na tarde desta quinta-feira, Sessions disse que não se lembrava se a eleição presidencial americana havia sido discutida durante seu encontro com o embaixador russo. Em relação à acusação de perjúrio, ele disse que houve um mal entendido durante sua sabatina e não teve intenção dar declarações falsas aos senadores. Sessions afirmou que enviaria suas explicações por escrito aos parlamentares.

Ex-procuradores federais ouvidos pelo Washington Post consideraram remota a possibilidade de que Sessions venha a ser investigado sob a acusação de perjúrio. 

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