Syrian Democratic Forces/Handout via REUTERS
Syrian Democratic Forces/Handout via REUTERS

Secretário do Interior decide não se opor à pena de morte nos EUA para membros britânicos do EI

Decisão de autoridade britânica, segundo processo judicial, rompe com tradicional posição política do país; os dois integrantes do grupo terrorista aguarda fim de impasse em detenção em território sírio e devem ser enviados para os EUA

O Estado de S.Paulo

08 Outubro 2018 | 16h11

O secretário de Interior britânico, Sajid Javid, decidiu cooperar com as autoridades americanas no processo contra dois terroristas britânicos do Estado Islâmico (EI) sem garantias de que eles não enfrentarão a pena de morte nos Estados Unidos. A decisão, como foi informado à alta corte do Reino Unido, visa evitar uma "indignação política" na administração Trump e representa uma mudança na histórica política do país de se opor à pena de morte. 

A decisão, segundo o jornal britânico The Guardian, foi anunciada quando o chefe do tribunal, Lorde Burnett de Maldon, e o juiz Garnham ouviram um pedido em nome da mãe de El Shafee Elsheikh sobre a legalidade do acordo do Ministério do Interior de fornecer provas aos promotores dos EUA.

Em julho, o jornal Daily Telegraph afirmou, com base em documentos oficiais, que Javid havia afirmado em carta a Sessions que o governo britânico não exigiu garantias de que dois britânicos não seriam executados caso fossem julgados nos EUA.

Elsheikh e Alexanda Kotey, que foram criados no Reino Unido, são acusados de ter pertencido a uma célula do grupo terrorista EI, conhecida como Beatles, à qual se atribui ao menos 27 decaptações de cidadãos americanos e britânicos no território ocupado pelo EI. Entre os mortos estão os assistentes humanitários britânicos Alan Henning e David Haines e os jornalistas americanos James Foley e Steven Sotloff. 

Os dois, que perderam a cidadania britânica, como explicou o Guardian, foram capturados em fevereiro por combatentes curdos sírios, levando a negociações nos bastidores entre o governo do Reino Unido e os EUA sobre onde eles deveriam ser processados: se seriam repatriados para o Reino Unido ou levados para os EUA. Autoridades locais na Síria pressionam para que haja uma decisão o mais rápido possível, já que, segundo alegam, com as condições precárias das detenções, há um sério risco de fuga. 

A decisão de Javid de não buscar garantias dos EUA de que os dois homens não enfrentariam a pena de morte foi desafiada por conselhos do Ministério do Exterior e altos funcionários públicos, disse Edward Fitzgerald, que representa Maha El Gizouli, mãe de Elsheikh.

O procurador-geral dos EUA, Jeff Sessions, inicialmente havia pressionado para que Elsheikh e Kotey fossem processados ​​no Reino Unido, reconhecendo que 600 depoimentos tomados pelo comando antiterrorismo da polícia Metropolitana seriam necessárias para condená-los.

Em uma audiência no Senado dos EUA, Sessions expressou "desapontamento pelo fato de os britânicos não estarem dispostos a julgar o caso, mas tentaram dizer (aos promotores dos EUA) como julgá-los", disse Fitzgerald. 

Maha El Gizouli alegou que não estava trazendo esse caso à tona "para desculpar os atos terríveis de que seu filho é acusado", mas porque ela está legitimamente preocupada se o secretário do Interior tomou uma decisão legal. "É relevante que as famílias das vítimas tenham dito que queiram justiça, mas não a pena de morte". Se impostas, Elsheikh e Kotey sofreriam uma morte "horrível e dolorosa", segundo ela, por meio  de injeção letal.

Elsheikh foi capturado em janeiro. Documentos da polícia Metropolitana britânica divulgados pouco depois sugerem que ele e Kotey estavam sendo mantidos pelas forças dos EUA no Iraque, segundo a corte, mas autoridades locais curdas, citadas pelo site The National, afirmam que eles são mantidos em território sírio. 

Fitzgerald alega que essa é a primeira vez em que houve uma "tentativa deliberada" de se afastar da tradicional política britânica de se opor à pena de morte em todo o mundo.  

 

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