Secretário dos EUA para América Latina chega a Brasília

Três dias antes da visita que o presidente eleito da Bolívia, Evo Morales, fará a Brasília, desembarca nesta terça-feira na capital brasileira o secretário de Estado para o Hemisfério Ocidental dos EUA, Thomas Shannon, para a primeira rodada de consultas com as autoridades do Brasil desde que assumiu o posto, em novembro passado. Além de conversas no Itamaraty e no Planalto, o alto funcionário americano terá um encontro com o ministro da Fazenda, Antonio Palocci.Shannon afirmou na semana passada, em entrevista à AE, que os EUA não querem o fracasso de Morales e têm, na Bolívia, "interesses largamente coincidentes" com os do Brasil. Ele acredita que os interesses brasileiros e americanos são convergentes também em relação aos desígnios sul-americanos do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, inimigo declarado dos EUA que a administração Bush considera caso perdido mas em relação ao qual mudou recentemente de tática, adotando a estratégia do silêncio para não alimentar a retórica bolivariana.Shannon diz que erra quem afirma que a eleição de Morales ilustra a perda de influência dos EUA na região. "Nosso objetivo é o desenvolvimento e consolidação de democracias constitucionais na região, que produzam resultados econômicos para seus povos", disse ele. "Haverá, nesse processo, tendências que são mais favoráveis a nós, e outras menos. Não vemos problema caso essas tendências se manifestem num contexto democrático e constitucional, no qual podemos apresentar nossos argumentos".O aparente suicídio do comandante da força de paz da ONU no Haiti, o general brasileiro Urano Bacellar, complicou o processo de estabilização política no país caribenho e aumentou a importância da questão entre os tópicos que Shannon discutirá em Brasília. O controle da situação haitiana é vital para os EUA, que quer a todo custo evitar que uma nova onda de refugiados do país lance-se ao mar rumo à Florida.Parte importante da agenda de Shannon é dar seqüência aos programas de cooperação bilateral que os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e George W. Bush anunciaram ao final do encontro que tiveram na Granja do Torto, no último dia 6 de novembro. Iniciativa semelhante foi anunciada com estardalhaço depois da visita que Lula fez a Washington em 2003 mas não saiu do papel, a não ser pelo grupo de consultas semestrais criado entre a Fazenda e o Tesouro americano. Mas o alto funcionário não leva decisões sobre o pleito brasileiro de convocação de uma reunião extraordinária do Grupo dos Oito para discutir a Rodada de Doha.Primeiro diplomata de carreira confirmado pelo Senado americano em oito anos para comandar a política de Washington para a região, Shannon, de 47 anos, é casado com uma guatemalteca, serviu em Brasília no início de sua carreira e tem um filho candango. Chamado a trabalhar no Conselho de Segurança da Casa Branca no governo Clinton, participou da negociação do acordo para permitir o uso de Alcântara para lançamento de satélites dos EUA, que está até hoje parado no Congresso brasileiro, à espera de ratificação.Seu impacto maior nas relações entre os dois países aconteceu, porém, durante a campanha presidencial de 2002 e depois da eleição de Lula, quando ocupava o posto de assessor senior para as Américas sob a então conselheira de Segurança Nacional Condoleeza Rice, a atual secretária de Estado. Trabalhando com a então embaixadora dos EUA em Brasília, Donna Hrinak, e o então embaixador brasileiro em Washington, Rubens Barbosa, e outros diplomatas, Shannon teve papel importante na preparação do caminho que permitiu o diálogo entre Bush e Lula, frustrando os direitistas americanos e os esquerdistas brasileiros que apostaram na confrontação. Ainda na Casa Branca, Shannon atuou na montagem de um canal de comunicação direto com o Planalto, ao largo do Itamaraty, tendo como interlocutor o então ministro chefe do Gabinete Civil, José Dirceu, cuja saída do governo ele lamentou.

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