Alessandro Bianchi/Reuters
Alessandro Bianchi/Reuters

Sectarismo e divisões ameaçam transição

Rebeldes não têm nome de consenso para liderar processo de democratização líbio

, O Estado de S.Paulo

23 de agosto de 2011 | 00h00

ZALUT, LÍBIA - Agora que o regime de quatro décadas de Muamar Kadafi parece estar terminando, os grupos díspares de rebeldes que buscam a queda do ditador poderão enfrentar um perigo mais grave: uns aos outros. Sem a causa da deposição de Kadafi para uni-los, combatentes de todas origens precisam produzir líderes para governar um país imerso em sectarismos, rivalidades tribais e divisões étnicas.

 

 

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Sem instituições de Estado que facilitariam uma transição, os rebeldes têm muito entusiasmo, mas não contam com uma cadeia apropriada de comando. Com isso, alguns combatentes parecem desiludidos. "Pode haver alguns problemas muito grandes. Todos vão querer dirigir o espetáculo. É aí que ficaremos encrencados", diz o militante Husam Najjar. "Todos precisam ser desarmados."

Não haverá uma figura unificadora capaz de liderar a Líbia e impedir que os rebeldes se voltem uns contra os outros? Por enquanto, a resposta parece ser um sonoro não. "Nenhum líder rebelde é respeitado por todos os outros. Esse é o problema", afirma Kamran Bokhari, diretor para o Oriente Médio da consultoria Stratfor.

Líderes. O político rebelde de maior destaque é Mustafa Abdel Jalil, presidente do Conselho Nacional de Transição (CNT). Mas o grupo rebelde é heterogêneo e inclui de ex-ministros de Kadafi a nacionalistas árabes, islâmicos, secularistas, socialistas e empresários. Ex-ministro da Justiça, Abdel Jalil é conhecido por ser um habilidoso construtor de consenso.

Ainda no governo de Kadafi, foi elogiado pela Human Rights Watch por seu trabalho na reforma do código penal líbio. Ele renunciou ao cargo em fevereiro quando a violência foi usada contra manifestantes. Como outros antigos funcionários do governo próximos a Kadafi, ele sempre será visto com suspeita por alguns rebeldes que querem rostos completamente novos sem qualquer vínculo com o regime que está governando o país.

O primeiro-ministro do governo rebelde, Mahmoud Jibril, outro ex-aliado de Kadafi, conta com amplos contatos estrangeiros e tem sido o enviado itinerante dos rebeldes. Mas suas viagens têm frustrado alguns colegas dentro e fora da Líbia.

Outro rebelde de destaque que poderá ter um futuro papel como líder é Ali Tarhouni. Acadêmico e membro da oposição vivendo no exílio, nos Estados Unidos, ele retornou à Líbia para encarregar-se de assuntos econômicos, financeiros e petrolíferos no governo rebelde.

Lições do Iraque. As tensões entre oponentes de longa data de Kadafi e seus apoiadores que desertaram recentemente para o lado dos rebeldes podem minar os esforços para a escolha de um comando efetivo. Se prevalecer a linha dura, a Líbia poderá cometer o mesmo erro que analistas dizem ter sido cometido no Iraque após a invasão americana em 2003, que derrubou Saddam Hussein.

Membros do Partido Baath e oficiais do Exército foram expurgados em massa, criando um vácuo de poder que levou a uma instabilidade política que duraria anos. Os sunitas, de líderes seculares à Al-Qaeda, travaram uma campanha violenta contra os novos governantes xiitas do Iraque apoiados pelos Estados Unidos. "Não se pode fazer uma regra de que alguém que trabalhou para Kadafi não possa trabalhar para nós. Isso não é prático", argumenta Ashour Shamis, um ativista líbio de oposição radicado na Grã-Bretanha.

Um indício do que pode estar se avizinhando é a ainda inexplicada execução, em 28 de junho, do comandante militar dos rebeldes, Abdel Fattah Younes, um ex-oficial de segurança de alto escalão de Kadafi, depois que ele foi detido por seu lado para interrogatório. A morte de Younes provocou temores de que o CNT seja demasiadamente fraco e dividido para impedir um banho de sangue.

Os que querem deixar de lado as animosidades pelo bem da reconstrução do setor energético do país podem querer a ajuda da antes maior autoridade na área, Shokri Ghanem. Formado no Ocidente, Ghanem, outro ex-aliado de Kadafi que desertou, tem décadas de experiência no setor de petróleo e é um ex-premiê com crédito pela liberalização da economia e a aceleração da abertura do país para o investimento petrolífero. / REUTERS

PERGUNTAS E RESPOSTAS

Como funciona a oposição líbia

1. Quais as origens do CNT?

O Conselho Nacional de Transição foi formado por membros do Movimento 17 de Fevereiro, um grupo rebelde de Benghazi integrado basicamente por profissionais liberais e empresários do leste da Líbia. Seu líder era o ex-ministro da Justiça de Kadafi Mustafa Abdel Jalil.

2. Quando o conselho rebelde foi criado?

Com o crescimento dos protestos contra Kadafi, em março, conselhos locais foram criados em

cidades rebeladas contra o governo de Trípoli. Esses órgãos se uniram ao Movimento 17 de Fevereiro e deram origem ao CNT em 5 de março.

3. Como funciona o CNT?

O CNT tem 40 membros. Cada um é responsável por uma área geográfica rompida com Kadafi. Cidades libertadas nos últimos dias pela ofensiva rebelde enviaram novos representantes para o conselho.

4. Qual o projeto de poder dos rebeldes?

O conselho diz estar comprometido com a integridade territorial líbia e em libertar todo o país. Seus líderes também prometeram convocar uma assembleia constituinte e conduzir o país à democracia.

5. Como o CNT governa as áreas já libertadas?

Um gabinete provisório foi montado e promete governar o país por um período de ao menos oito meses. O órgão tem também comitês sobre economia, segurança, defesa e relações exteriores. Ele governa áreas que já não estão sob o controle de Trípoli e é responsável pelo fornecimento de alimentos e serviços básicos nessas regiões

6. Há risco de dissidência no CNT?

Em julho, o comandante militar do CNT Abdel Fattah Younes foi morto em circunstâncias ainda não totalmente explicadas. Ele seria questionado por contatos de seus parentes com pessoas ligadas a Kadafi.

7. O conselho tem legitimidade popular?

Os membros do CNT dizem ter conquistado apoio popular nos primeiros dias dos protestos contra Kadafi, após um comício em Benghazi no qual prometeram defender a cidade e garantir os serviços básicos à população. Líderes do grupo foram a outras cidades rebeladas para conquistar apoio das tribos locais.

8. Como as tropas rebeldes avançaram até Trípoli?

Após meses de impasse militar, mesmo com o auxílio da Otan, os rebeldes, com treinamento e dinheiro proveniente de fundos bloqueados de Kadafi liberados pelas potências ocidentais ganharam terreno e chegaram à capital líbia em três frentes.

LÍDERES DO CNT

Mustafa Abdul Jalil

Líder do Conselho Nacional de Transição, é ex-ministro da Justiça de Kadafi. Planejou um período de transição de 20 meses até a realização de eleições

Mahmoud Jibril

Premiê do CNT, é ex-líder do Conselho de Desenvolvimento Econômico de Kadafi. É responsável pelas relações dos rebeldes com outros países

Abdul Hafiz Ghoga

Vice-líder dos rebeldes, é advogado de direitos humanos e representou famílias de presos mortos em um massacre em 1996. Hoje, atua como porta-voz do CNT

Ali Tarhouni

Ministro das Finanças dos rebeldes, estava exilado nos EUA por causa da oposição a Kadafi

e voltou ao país para comandar o setor econômico do CNT

Shokri Ghanem

Ex-premiê de Kadafi até 2006 e ex-presidente da Companhia Nacional do Petróleo, abandonou o governo de Kadafi e aliou-se aos opositores em maio. Acredita que o país pode retomar a produção de petróleo em 4 meses

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