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Século de progressos de direitos das mulheres está ameaçado, diz ONU

No atual ritmo, mundo precisará de 70 anos para ver uma paridade de salários entre homens e mulheres

Jamil Chade, correspondente / Genebra , O Estado de S. Paulo

06 Março 2015 | 10h56

GENEBRA - Um século de progresso nos direitos das mulheres está ameaçado. O alerta é da ONU que, em um estudo publicado para marcar o dia internacional da mulher, aponta justificativas culturais, religiosas e tradições como obstáculos cada vez mais usados para frear novos avanços. Em termos econômicos, a entidade ainda alerta que, para chegar à uma igualdade de salários entre homens e mulheres, o mundo precisará de pelo menos mais 70 anos.

Neste ano, a data do 8 de março que marca o Dia Internacional da Mulher também marcará os 20 anos da Conferência Mundial da ONU de Pequim, que estabeleceu as bases para os direitos das mulheres. Mas, em duas décadas, o progresso não foi o que os especialistas esperavam.

"Estamos registrando sinais de regressão, de forma frequente em nome da cultura, religião e de tradições que ameaçam o progresso atingido pela igualdade da mulher", declarou a ONU em um estudo publicado nesta sexta-feira, 6.

Na avaliação da entidade, a "discriminação contra a mulher continua a prevalecer tanto nas esferas públicas como privada em todas as partes do mundo, em zonas de paz ou de guerra". "Nenhum país atingiu uma igualdade substantiva para a mulher".

Os dados, segundo a ONU, falam por si só. Em média, apenas 20% dos parlamentares no mundo são mulheres e apenas 17% de chefes de estado. Na própria ONU, o cargo de secretário-geral jamais foi ocupado por uma mulher.

Em termos econômicos, os avanços ainda são considerados insuficientes. Segundo a Organização Internacional do Trabalho, se o atual ritmo de aproximação dos salários entre mulheres e homens for mantido, o mundo precisará de pelo menos mais 70 anos para que haja uma igualdade de renda.

Hoje, em média, as mulheres ganham 77% do salário dos homens para realizar o mesmo trabalho. Em 20 anos, a melhoria foi de apenas três pontos percentuais.

Questionado se o avanço nas condições das mulheres no mercado de trabalho atendeu às expectativas, o diretor-geral da OIT, Guy Ryder, foi enfático. "Certamente não".

Violência. Outro alerta da ONU se refere à violência, que atinge 700 milhões de mulheres. De acordo com a OIT, um terço das mulheres são "vítimas de violência física ou sexual que afetam sua participação no mundo do trabalho". Na África e Oriente Médio, 40% das mulheres são vítimas.

"Continuamos a ser testemunha de violência, em nome da honra, beleza, pureza, religião e tradição", alertou o informe da ONU.

A cada ano, 50 mil mulheres pelo mundo ainda morrem por conta de abortos feitos sem qualquer assistência e 5 milhões delas ainda acabam com problemas de saúde por conta da falta de serviços ou atendimento.

Privado. Um dos principais alertas da ONU, porém, se refere à vida privada das famílias e tendências que estariam ganhando força. "Atenção e foco nos valores da família e proteção da família são importantes. Mas não não podemos ser equivalente ou substituir o direito da mulher e sua autonomia", alertou.

"A proteção da família precisa incluir a proteção dos direitos humanos de cada um dos seus membros, especialmente a igualdade entre homens e mulheres e entre garotos e garotas", indicou.

Hoje, mesmo na Europa, mulheres que tem filhos ainda contam com salários mais baixos que mulheres sem crianças. No Reino Unido, uma mulher com dois filhos ganha em média 25% a menos. No caso dos homens, aqueles com filhos tendem a ganhar mais que os homens sem filhos. No caso dos EUA, essa diferença seria de 11%.

A ONU aponta que, de fato, alguns progressos foram atingidos. Em 20 anos, o número de países oferecendo licença maternidade passou de 38% para 51%. Mas a diferença entre os trabalhos domésticos feitas pela mulher e pelo homem ainda é profundo. Na Europa, uma mulher destina em média 26 horas por semana para cuidar das crianças e da casa. No caso do homem, essa taxa não passa de nove horas.

"Para que o século 21 seja o século das mulheres, esforços terão de ser feitos para reconhecer o papel da mulher, facilitar e premiar sua promoção e ainda protege-las de abusos e violência", declarou.

A ONU defende, entre diversas medidas, que um sistema de cotas e medidas especiais sejam adotadas para garantir maior representação de mulheres como líderes políticas, no setor público e nas decisões econômicas.

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