Fernanda Simas/ Estadao
Fernanda Simas/ Estadao

Sede do Partido Liberal do Paraguai mantém cenário de assassinato

Rodrigo Quintana havia se refugiado no prédio em razão da repressão ao protesto contra lei que habilitaria a reeleição presidencial

Fernanda Simas, enviada especial a Assunção, O Estado de S.Paulo

22 Abril 2018 | 05h00

ASSUNÇÃO - O quarteirão das ruas Iturbe com Manuel Domínguez de Asunción, onde fica a sede do Partido Liberal, tem paredes e calçadas com pichações que lembram a madrugada de 1.º de abril de 2017, quando Rodrigo Quintana foi morto a tiros pela Polícia Nacional na sede política. “Quem deu a ordem?”, “Justiça para Rodrigo” e “Cartes assassino 31M” são as frases que levam ao edifício azul.

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“Rodrigo havia começado na vida política dois anos antes. Estava muito preocupado com a situação do país, era imparável. Eu sentia orgulho, também fui ativista e ele se interessou por política. No dia 31, ele saiu 17 horas de casa e a mãe conversou com ele pela última vez quando ele estava chegando a Assunção, mas estava dirigindo e não pode falar muito tempo” , lembra o pai de Rodrigo, Fidelino Quintana, que recebeu a notícia da morte do filho no dia seguinte por volta de 10 horas.

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Até hoje, a discussão em torno do caso é sobre quem deu a permissão para a polícia invadir a sede. O suboficial Gustavo Florentín, que assumiu ter sido o autor do disparo que matou o jovem de 25 anos, está preso, foi acusado e deve ser submetido a um júri.

“A polícia envolvida no caso foi quem realizou a investigação apresentada pela Procuradoria, que com base nesses relatórios preparados para processar apenas integrantes do baixo escalão acusou uma pessoa. Evidências mostram que chegaram mais de 25 policiais de forma organizada e de diferentes pelotões, que respondem a diferentes chefes”, explica o advogado Guillermo Duarte, contratado pelo partido para cuidar do caso da família de Quintana.

Hoje, a sede do partido tem movimentação normal, com funcionários discutindo as propostas políticas da aliança formada pelo candidato do Partido Liberal à presidência, Efraín Alegre, e outros políticos de partidos de esquerda e centro. No corredor onde Quintana foi morto, a cena está preservada. O exato local onde ele ficou caído após receber o disparo pelas costas permanece intacto, com uma proteção de vidro que deixa à mostra a terra e as memórias que restaram ali depois da retirada do corpo.

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“O movimento jovem do qual meu filho participava quis manter a cena aqui para lembrar que isso nunca mais pode acontecer”, explica Fidelino, mostrando cada passo que o filho deu antes de ser atingido pelo disparo. Quintana era presidente da Juventude do Partido Liberal.

Os vídeos das câmeras de segurança mostram o momento em que um grupo de manifestantes está na sede no partido, conversando. Em alguns minutos, saem correndo e é possível ver Quintana ser atingido pelas costas e cair no corredor do térreo. Um policial passa por ele, pisa em seu corpo, vê que ele não reage e continua andando. Esse policial é Florentín, que na época disse ter recebido autorização para entrar no edifício.

Duarte explica que as imagens foram imprescindíveis para derrubar as diferentes versões que tentaram dar ao caso. “Primeiro quiseram dizer que Rodrigo Quintana havia morrido do lado de fora do partido, na rua. Depois, disseram que os policiais acusados não haviam chegado até a sede do partido. Quando não havia como negar que ele morreu aqui e nas mãos da Polícia Nacional, disseram que apenas Florentín foi o responsável.”

Julgamento

Segundo a acusação apresentada pela Procuradoria no dia 8 de abril deste ano, a entrada não teve autorização judicial, por isso não há mais acusados no caso. A defesa da família Quintana contesta essa versão da investigação até hoje.

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“A polícia inventou que deu uma ordem para que ninguém entrasse na sede do partido e apenas Florentín teria entrado, mas provamos que essa ordem foi dada 00:58, ou seja, 24 minutos depois de Rodrigo ter sido baleado”, afirma Duarte, acrescentando que pode levar o caso a cortes internacionais se for preciso.

Na noite do dia 31 de março, protestos tomaram o centro de Assunção e manifestantes invadiram o Congresso e atearam fogo dentro do edifício após 25 senadores aprovarem o projeto de emenda constitucional para habilitar a reeleição presidencial. O projeto tinha a assinatura de senadores do governista Partido Colorado, de Horacio Cartes, da Frente Guasú, do ex-presidente Fernando Lugo, além do Avança País, a União Nacional de Cidadãos Éticos e o Partido Liberal Radical Autêntico.

Agora a esperança de ter justiça para o caso, dizem Duarte e Fidelino Quintana, está em uma mudança no comando político. “Se ganha o Partido Colorado nada vai mudar e vão deixar o caso como está”, afirma Duarte.

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