Segredos do Iraque são alerta para a luta no Afeganistão

Arquivos vazados servem para elaborar nova estratégia

Sabrina Tavernise / The New York Times, O Estado de S.Paulo

25 de outubro de 2010 | 00h00

O arquivo sobre a guerra no Iraque, examinado com todos os detalhes, de incidentes pequenos a grandes, serve como advertência para a atual estratégia militar aplicada no Afeganistão. Com frequência se afirma que essa mesma estratégia, baseada num aumento de tropas, salvou o Iraque. Foi adotada pelo Exército americano, produzindo uma reviravolta naquela guerra cada vez mais sem esperanças. E embora seja verdade que o reforço de tropas trouxe mais segurança, informações desses arquivos sugerem que ela teve êxito porque muitos iraquianos a acatara.

Um conjunto extraordinário de condições se instalou no Iraque. As comunidades em guerra estavam exaustas com a histeria de assassinatos. Distritos e cidades foram amplamente expurgados. As milícias, por muito tempo consideradas defensoras, passaram a dilacerá-las. Por isso os moradores ficaram mais receptivos às iniciativas americanas.   

 

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A guerra que emerge dos documentos é um conjunto de circunstâncias que mudam rapidamente, com sua própria lógica e alcance, e cuja fluidez foi subestimada pelo Exército, pela mídia e pelos políticos de Washington. O reforço de tropas, aconselhado e conduzido pelo general David Petraeus, agora no comando no Afeganistão, foi implementado mais ou menos na época em que os iraquianos, tão fartos das suas milícias locais, aceitaram correr o risco de cooperar com os americanos, fornecendo-lhes informações. Dois anos antes, eles não tinham tal disposição. Isso não significa que o aumento de tropas e as mudanças estratégicas que se seguiram não tenham sido importantes. Pelo contrário, essa aposta arriscada foi crucial para reduzir a violência. Sem ela, os iraquianos ainda estariam no atoleiro.

Em seu conjunto, os arquivos do Iraque e do Afeganistão sugerem que cada guerra tem sua própria alquimia. Neste momento, o general Petraeus está confrontando uma sociedade muito diferente. Resta ver se os cidadãos pashtun estão dispostos a resistir ao Taleban, se os líderes tribais afegãos têm força suficiente para liderar essa resistência ou se o Taleban e um governo profundamente desacreditado estão dispostos a uma reconciliação. O Afeganistão é um país mais pobre, mais inculto e mais centralizado do que o Iraque. Cada vale é a sua própria nação.

No Iraque, os americanos esperavam ser recebidos como libertadores, mas foram considerados ocupantes. E os iraquianos acabaram aceitando as tropas por cansaço e desespero. No Afeganistão, os americanos no início foram bem acolhidos, mas à medida que guerra se arrasta, os afegãos acabam perdendo a fé na capacidade americana de protegê-los. A lição do Iraque é que, sem essa fé, nenhuma estratégia pode ter sucesso. Se o Afeganistão é uma guerra de pequenos talhos, no Iraque o corte é profundo. Nos meses mais sangrentos, mais de 3 mil civis iraquianos foram mortos, 10 vezes o número de vítimas civis no Afeganistão, cuja população é maior.

O Pentágono demorou para reconhecer o que estava perfeitamente claro dentro do Iraque: que o país estava mergulhado numa guerra sectária. Em 2006, o Exército, pressionado pelo Congresso, passou então a divulgar dados parciais de vítimas civis. A palavra "seita" aparece apenas 12 vezes no arquivo em 2005, ano que começou a limpeza sistemática. Corpos que apareceram em depósitos de lixo, rios e terrenos vazios foram classificados como "um fato de natureza criminosa". Ao que parece, a importância dada a eles não foi maior do que no caso de um acidente de trânsito. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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