Cláudia Trevisan / Estadão
Cláudia Trevisan / Estadão

Cláudia Trevisan, ENVIADA ESPECIAL / ATLANTA, EUA, O Estado de S.Paulo

31 Março 2018 | 19h00

Chris Mangum tem 37 anos, paga impostos, mas nunca conseguiu votar. Condenado a 6 anos de prisão na juventude, ele perdeu o direito de eleger seus representantes, mesmo depois de cumprir sua pena. Os EUA são um dos poucos países democráticos nos quais existe esse tipo de restrição, que afeta os negros de maneira desproporcional. Com 13% da população, eles representam 37% dos 6,1 milhões de detentos e ex-detentos sem direitos políticos.

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Cinco décadas depois da morte de Martin Luther King Jr., o acesso às urnas continua na pauta do movimento pelos direitos civis. Além do veto aos que vão à prisão, vários Estados do Sul adotaram leis que dificultaram o exercício do voto por pobres e por minorias depois de 2013, quando a Suprema Corte derrubou parte da Lei do Direito do Voto, aprovada em 1965. “Eu terminei de cumprir minha pena há 23 anos, mas nunca conquistei direito ao voto. Eu tentei me registrar para votar na reeleição de (Barack) Obama, mas não aceitaram”, disse Bruce Morris, negro de 51 anos.

O EUA experimentaram um aumento de 500% em sua população carcerária nos últimos 40 anos, em grande parte como consequência da “guerra às drogas” desencadeada nos anos 80. 

Estudo do Sentencing Project, com base em dados oficiais, indica que homens negros enfrentam probabilidade seis vezes maior que os brancos de ser presos. Uma vez presos, têm mais risco de serem condenados e de receberem penas mais elevadas.

“A terra dos livres é a capital mundial do encarceramento. Proporcionalmente, há mais negros nas prisões nos EUA do que havia na África do Sul no auge do apartheid”, afirmou Raphael Warnock, pastor da Igreja Batista Ebenezer de Atlanta, onde King e seu pai pregaram.

De acordo com Warnock, a pobreza, o encarceramento em massa e as restrições no direito ao voto se entrelaçam em um círculo vicioso que marginaliza grande parte da população negra. Os números confirmam as suspeitas de que a raça influencia a seleção dos que entram no sistema prisional. 

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Apesar de não haver diferenças significativas na frequência do uso de drogas entre negros e brancos, os primeiros foram os principais alvos da “guerra” desencadeada nos anos 80. De 1980 a 2000, a proporção de prisões de negros relacionadas a drogas subiu de 6,5 para 29,1 por 1.000 habitantes. Entre os brancos, a evolução foi de 3,5 para 4,6, segundo dados do Sentencing Project.

A discrepância se deve em parte à lei dos anos 80 que estabeleceu pena mais severa aos que eram pegos com crack, droga mais usada pelos negros, do que com cocaína, preferida pelos brancos. Quem tivesse 1 grama de crack seria condenado como se portasse 100 gramas de cocaína. Em 2010, a proporção foi reduzida a 1 para 18.

Citando o título do livro de Michelle Alexander, recém-lançado no Brasil, Vicki Crawford disse que o encarceramento em massa é a “nova segregação” nos EUA. “O sistema criminal e as prisões são as formas modernas de subjugação racial”, afirmou Crawford, diretora da coleção de documentos de King mantida pela Faculdade Morehouse, onde o líder do movimento pelos direitos civis estudou.

Criada por ex-escravos depois da Guerra Civil (1861-1865), a Morehouse integra o conjunto das históricas instituições de ensino negras. A segregação acabou, mas 96% de seus alunos continuam a ser afro-americanos. Estudante de História, Je’Lon Alexander, de 21 anos, contou que a faculdade é um “lugar seguro” para homens negros. “Nós não teríamos as mesmas oportunidades em uma instituição majoritariamente branca.”

As barreiras impostas ao exercício do voto não têm natureza racial explícita, mas afetam de maneira desproporcional os pobres, entre os quais os negros são maioria. A decisão acabou com a exigência de que Estados do Sul submetessem à aprovação federal mudanças em suas leis eleitorais. 

Desde então, vários governos estaduais adotaram regras que exigem documentos com foto. Os EUA não possuem uma carteira de identidade nacional e o documento mais comum é a carteira de motorista, que só tem quem sabe dirigir.

No entanto, a forma mais abrangente de supressão do direito ao voto é a proibição de seu exercício pelos que são condenados. Em 48 dos 50 Estados americanos, os que estão na prisão não podem votar. A proibição continua durante a liberdade condicional em 34 deles, enquanto em 12 o veto é vitalício. Antes da explosão na população carcerária, 1 milhão de condenados não podia votar. 

“Os EUA têm a mais extrema restrição do tipo entre países democráticos e ela afeta os negros de forma desproporcional”, disse Marc Mauer, diretor executivo do Sentencing Project. Segundo ele, dos 6,1 milhões proibidos de votar, metade já cumpriu sua pena.

A Flórida possui um dos mais severos índices de supressão de voto, com 1,7 milhão de condenados proibidos de ir às urnas pelo resto da vida. Desses, 500 mil são negros, o equivalente a 21% da população adulta afro-americana. O Estado foi crucial para a vitória de George W. Bush na eleição do ano 2000 e contribuiu para a chegada de Donald Trump à Casa Branca em 2016. 

Eleitores negros que foram às urnas optaram em peso pela democrata Hillary Clinton na disputa com Trump. “O impacto dessas formas modernas de supressão do voto é fenomenal”, ressaltou Crawford.

O Alabama mudou sua legislação no ano passado e restringiu o número de crimes que podem levar à perda vitalícia do direito de voto. No entanto, Mauer disse que não é fácil identificar quem pode ou não votar. Mangum, que foi mandado à prisão quando era jovem, nunca foi às urnas. “Eu tentei, mas disseram que eu não podia votar.”

Em 1968, a notícia que incendiou comunidades negras nos EUA

No dia 4 de abril de 1968, Charles Mauldin caminhava pelas ruas de Boston quando ouviu a notícia: Martin Luther King Jr., líder do movimento contra a segregarão racial, havia sido assassinado a tiros na sacada do hotel em que estava hospedado em Memphis, no Tennessee. “Fiquei perplexo, paralisado. Não podia acreditar.”

Cinco décadas depois, ele experimenta outra forma de incredulidade, ao presenciar o que classifica como um “assalto” aos direitos civis de minorias e o ressurgimento da retórica racista nos EUA, estimulado pela linguagem do presidente Donald Trump. Seu maior reflexo foram as manifestações de supremacistas brancos, no ano passado.

Adolescente nos anos 60, Mauldin viveu a experiência da segregação que dividiu brancos e negros em áreas públicas: transporte, escolas, cinemas, teatros, restaurantes, bebedouros e banheiros. “Eu me lembro da indignidade de ser intimidado todos os dias”, disse Mauldin, de 70 anos, que participou da marcha de Selma a Montgomery, liderada por King, em 1965. A reversão apontada por ele não é na direção do racismo institucionalizado e se manifesta na adoção de políticas que agravam dois dos principais problemas que hoje afetam negros: a violência policial e o encarceramento em massa.

 

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Cláudia Trevisan, ENVIADA ESPECIAL / ATLANTA, EUA, O Estado de S.Paulo

31 Março 2018 | 19h00

“Você não vai levantar, crioulo?”, grita a voz que sai do fone de ouvido, enquanto efeitos especiais dão a impressão de que o banco ocupado pelo visitante é chacoalhado e atingido por chutes. Outras vozes se somam, em um tumulto crescente, marcado por insultos, gritos e ruídos de pratos quebrados e talheres jogados no chão. A gravação reproduz a reação contra os negros que desafiaram a segregação racial nos EUA, em 1960, e se sentaram em balcões de restaurantes destinados aos brancos. Recriada no Centro de Direitos Civis e Humanos de Atlanta, na Geórgia, a experiência dura poucos minutos e coloca o visitante na mesma situação dos negros que seguiram a filosofia da não violência, de Martin Luther King Jr., e permaneciam em silêncio, sem nenhuma reação, enquanto eram intimidados.

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A encenação não incluiu as agressões físicas que os ativistas sofriam. Muitos eram queimados com cigarros ou jogados no chão, onde recebiam socos e pontapés. Sobre outros, eram derramados copos de milk-shake ou refrigerante. Ainda assim, grande parte dos visitantes do museu se levanta dos bancos trêmulos e é confortada por uma funcionária, que espera com um abraço e um lenço de papel.

Outra sala apresenta exemplos das leis que institucionalizaram a segregação racial nos Estados do Sul, depois de sua derrota na Guerra Civil (1861-1865), na qual se opuseram ao fim da escravidão. “O casamento de uma pessoa branca com uma negra ou mulata ou uma pessoa que tenha um oitavo ou mais de sangue negro, é ilegal e nulo” diz o texto de uma das legislações. “Todos os que possuem licença para operar um restaurante devem servir exclusivamente pessoas brancas ou exclusivamente pessoas de cor e não devem vender às duas raças no mesmo salão ou servir as duas raças em qualquer lugar sob a mesma licença.”

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Aberto em 2014, o centro é uma das instituições criadas em Estados do Sul nos últimos 26 anos para narrar a violência daquele período. Uma das primeiras surgiu em Birmingham, no Alabama, em 1992. A mais recente abriu as portas em dezembro, no Mississippi. Juntas, elas disputam espaço na narrativa histórica da região com os monumentos a líderes confederados que se rebelaram contra o presidente dos EUA, Abraham Lincoln, para resistir ao fim da escravidão.

“Jefferson Davis era um traidor, que se insurgiu contra os EUA. Ainda assim, sua estátua está em frente à Assembleia Legislativa do Alabama”, reclama Michelle Browder, de 46 anos, na capital do Estado, Montgomery. Davis foi o presidente dos Estados Confederados e sua imagem está diante do edifício que foi o ponto final da marcha liderada por King a partir de Selma.

A poucos metros, está a estátua de J. Marion Sims (1813-1883), considerado o pai da ginecologia moderna. “Ele usou escravas em seus experimentos e as operava sem anestesia ou qualquer substância para reduzir a dor”, afirma Michelle, ativista e criadora do “Mais que Tours”, que organiza visitas focadas em direitos civis e no impacto da escravidão e da segregação.

Michelle lidera uma campanha para que sejam erguidas no local estátuas das três escravas operadas com mais frequência por Sims: Anarcha, Betsey e Lucy. “Se eles o querem manter, devem também homenagear suas vítimas.”

O destino de mais de 700 monumentos que celebram líderes confederados esteve no centro das demonstrações de supremacistas brancos no ano passado. A maior delas ocorreu em Charlottesville, na Virgínia. Os protestos eram contra a remoção de estátuas de dois generais que lutaram contra o Norte. O evento foi marcado pela violência e a morte da ativista Heather Heyer, atropelada por um supremacista branco.

Para muitos negros, as estátuas confederadas são símbolos de opressão e deveriam ser eliminadas. Os brancos do Sul argumentam que elas são parte de sua herança cultural. “A maioria dos monumentos foi criada na era Jim Crow, em oposição à igualdade racial”, diz análise do Centro de História de Atlanta, usando o nome pelo qual as leis de segregação eram conhecidas – Jim Crow era um personagem de teatro negro, do século 19, interpretado por um ator que pintava o rosto e as mãos de preto. Aos 75 anos, o pai de Michelle, Curts Browder, passou a infância e a adolescência em Birmingham, sob as leis da separação racial. “Eu não sinto mais raiva, mas a segregação deixou um ferrão no meu peito.”

Além da separação entre negros e brancos em espaços públicos, o período foi marcado pelo terror da Ku Klux Klan. A cidade de Browder foi apelidada de Bombingham, em razão dos 50 ataques contra negros entre 1940 e meados dos anos 60. O de maior impacto ocorreu em 1963 e matou quatro meninas negras na Igreja Batista da Rua 16. A KKK está em decadência, mas muitos se lembram ainda dos desfiles do grupo em Montgomery, na década passada.

 

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Cláudia Trevisan, ENVIADA ESPECIAL / ATLANTA, EUA, O Estado de S.Paulo

31 Março 2018 | 19h00

A brasileira T.R. fez a primeira viagem internacional de sua vida há seis anos e aterrissou em Atlanta, a cidade natal de Martin Luther King Jr., onde 53% da população é negra, como ela. "Eu pisei aqui e comecei a ver negros em todos os lugares: no banco, nas butiques caras, dirigindo Mercedes, no metrô, nos restaurantes. Nunca tinha visto isso no Brasil", lembrou ela, que vivia em São Paulo.  A ideia de passar apenas um mês de férias na cidade foi abandonada e ela nunca mais voltou.

"Aqui você vê que é possível para negros ter acesso, ter mobilidade. No Brasil, isso não é natural, nós não temos exemplos desse tipo." Antes de chegar a Atlanta, T. R. navegava em ambientes majoritariamente brancos. "Eu estudei na Unesp e na minha formatura havia apenas oito negros entre 300 alunos. Meus namorados eram brancos e como sempre fui faladeira e simpática, eu era 'aceitável'", afirmou.

Mas não era fácil ter uma posição de comando no mundo branco. Com 43 anos, ela diz que dirigia uma biblioteca na Vila Leopoldina e tinha uma estagiária loira. Quando elogiavam os serviços do local, os usuários não se dirigiam a ela, mas à subordinada branca. Segundo a brasileira, os seguranças se referiam a ela de maneira jocosa como "Alcione" e não a respeitavam. 

Nos seis anos em que está nos EUA, ela lembra de ter passado por uma experiência que pode ser interpretada como racista. T.R. estava no clube que frequenta perto de sua casa e se dirigiu à banheira de hidromassagem, onde havia um homem branco. Na medida em que ela se aproximava, ele balançava a cabeça de forma negativa. "Quando eu entrei na água, ele saiu e desligou o motor da banheira."  

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Em Atlanta, ela encara a vida de imigrante e trabalha como faxineira. Ainda assim, ela garante que vive com mais conforto do que no Brasil. Só de aluguel, desembolsa US$ 1.250 por mês, o equivalente a R$ 4 mil. "Tenho mais oportunidade econômica aqui do que no Brasil como bibliotecária." Quando encontrou a reportagem, a brasileira saia da exibição de um documentário sobre uma percursionista da Bahia. 

Mas o século de segregação racial deixou sua marca nos Estados Unidos. "O que eu quase não vejo aqui são casais inter-raciais, muito mais comuns no Brasil."

 

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