(Lexey Swall/The New York Times)
(Lexey Swall/The New York Times)

Segregação racial afeta custo de imóveis nos Estados Unidos

Casa em rua de maioria negra custa US$ 48 mil menos que em local onde vivem brancos; preços afastam moradores pobres de bairros da capital

Beatriz Bulla, CORRESPONDENTE/ WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

06 de janeiro de 2019 | 05h00

WASHINGTON - O valor de uma casa em um bairro negro dos EUA chega a ser US$ 48 mil menor do que uma propriedade em um bairro branco. A conta, feita em um estudo do Brookings Institution e do Gallup, compara apenas propriedades com características semelhantes e em bairros com mesma infraestrutura. A diferença é, portanto, o que os pesquisadores consideram como o “custo racial”. 

“Ao longo dos anos, a segregação afetou negativamente as condições dos bairros e a qualidade das casas. No entanto, as diferenças não explicam totalmente os preços”, argumentam Andre Perry, Jonathan Rothwell e David Harshbarger na pesquisa. Segundo Perry, a propriedade privada está no centro do “sonho americano”. 

Partindo do pressuposto de que o imóvel é o maior patrimônio de uma pessoa, os pesquisadores apontam para o risco de a diferença no valor das casas perpetuar a desigualdade social entre negros e brancos. 

Somando o valor em cada casa, em média, a perda “acumulada” nas propriedades em bairros predominantemente negros chega a US$ 156 bilhões, segundo os pesquisadores. 

O custo de uma casa em bairro majoritariamente negro, nas áreas metropolitanas, é ao redor de US$ 184 mil. Já a média nos bairros em que os negros são menos de 1% dos moradores, é de US$ 341 mil – sem considerar as diferenças de infraestrutura das regiões. Nas áreas metropolitanas dos EUA, 10% dos bairros são predominantemente negros e nessas regiões vive 41% da população negra. 

Em Washington, o custo alto de propriedades em bairros predominantemente brancos tem alterado o perfil das áreas residenciais. A capital, que era conhecida como “cidade chocolate”, por ter maioria negra, mudou seu perfil demográfico, mas manteve a segregação racial entre bairros. 

Segundo o centro de estudo D.C. Policy Center, 71% da população se definia como “negra” nos anos 70. Atualmente, a porcentagem fica abaixo da metade da população. Desde a década de 70, o “índice de segregação” entre os bairros oscilou entre 72 e 77 (numa escala até 100), chegando a 70 nas medições mais recentes. A resposta para isso é a mudança da população negra para os subúrbios.

A capital tem ruas que mudam de perfil de acordo com o lado da cidade em que se está – leste ou oeste. A gentrificação é puxada pelo lançamento de prédios de luxo, que mudam o perfil dos serviços e dos moradores.

Krista DeNovio trabalha em uma das corporações responsáveis por construir os complexos residenciais. Moradora de Washington desde 2004, ela diz ter visto uma série de mudanças. “Notei uma mudança nos últimos anos em grande parte resultado do desenvolvimento de grandes empresas residenciais, que acabam trazendo mais postos de trabalho, mais lojas e restaurantes para uma área”, afirma.

Cerca de 25 anos atrás, há dois quarteirões do prédio onde Krista trabalha, a rua que hoje abriga uma lanchonete da rede Shake Shack era considerada violenta e uma área de venda de vídeos pornográficos. Agora, a região abriga comércio, hotéis e turistas.

A rua “H”, em Washington, é um dos corredores onde é possível ver a transição. No lado sudeste, a rua mudou de cara a partir de 2016 com a inauguração de um dos prédios, conhecido como Apollo. Piscina no terraço, mesa de sinuca e academia são algumas das amenidades. Quem se mudou para o Apollo diz que o prédio trouxe um perfil de comércio mais caro e expulsou moradores antigos para regiões menos valorizadas. 

Preços altos 

Linda Lopes nasceu em Washington. A maior parte de sua vida passou na região noroeste da capital americana, onde tinha uma casa. No entanto, em 2011, precisou se mudar. Com o lançamento de imóveis de luxo, a área em que vivia deixou de ser acessível.

“Essa era a chamada ‘Cidade Chocolate’ e hoje não é mais. Gosto da diversidade, mas ela trouxe, ao mesmo tempo, casas e serviços que não são mais acessíveis a uma parte da população”, diz. O apelido “Cidade Chocolate” é em referência à grande comunidade negra que vive na capital dos EUA. “Eu me mudei para a última área a preços acessíveis, o sudeste. Só é acessível porque sempre teve a reputação de um lugar onde você não gostaria de morar.” 

A antiga casa Linda morou é próxima dali, possível de chegar com uma caminhada, mas passou a ser um mundo distante. Hoje aposentada, ela diz ver novos empreendimentos imobiliários lançados no sudeste e aposta que, em breve, precisará procurar outra casa para morar. 

Não é raro, em Washington, que as pessoas se refiram a uma rua ou bairro como uma região que abrigou um antigo “gueto”. São regiões exploradas, nos últimos anos, por corporações imobiliárias, responsáveis pela mudança no perfil da região e dos moradores. É o caso da Rua 14, onde os prédios com piscina e churrasqueira na cobertura se acumulam ao lado um do outro.

Howard Barrett é negro e cresceu entre Maryland e Washington. Atualmente, trabalha no noroeste – região que Linda precisou abandonar e onde o aluguel de pequenos apartamentos chegam a custar mais de US$ 2 mil ao mês. “Muitas mudanças aconteceram. Elas trouxeram mais diversidade, mas deixaram muitos sem teto e mudaram o sentimento de comunidade. É um ciclo de mudança pelo qual a cidade passa”, afirma Barrett, que é capaz de dizer uma lista de ruas e bairros que mudaram de cara. 

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