Seguidores de Bové destroem lavouras de milho transgênico

Há três semanas, grupos de camponeses armados de foices, podadeiras e facões reúnem-se todas as manhãs em meio a uma lavoura de milho transgênico e arrancam todos os pés, num verdadeiro ato de selvageria. Esse comportamento, todavia, não ocorre na clandestinidade. Pelo contrário, ele é alardeado ao máximo por seu líder tático, José Bové, incentivador da Confederação Camponesa e crítico feroz da dieta à base de "malbouffe", ou junk food (produtos alimentícios de má qualidade provenientes dos Estados Unidos, principalmente do McDonald´s) e da "globalização".José Bové é um homem talentoso e enérgico. Muitos se deixam seduzir por sua luta tresloucada e anárquica contra a globalização, cujos únicos beneficiários são os países ricos. Contudo, sua nova campanha de erradicação programada de todos os campos de milho da França que contenham organismos geneticamente modificados assusta até mesmo as pessoas mais afinadas com seu ideário. Trata-se de uma insurreição que vai crescendo à luz do dia.As milícias de Bové, constituídas por grupos de 150 homens, já deixaram sua marca em cinco ou seis departamentos franceses. Bové disse que as destruições prosseguirão até que todas as experiências sejam erradicadas. No início, o governo não demonstrou muito interesse em interferir. A um ano das próximas eleições (para a presidência), ele preferiu não hostilizar uma parte do mundo camponês e, ao mesmo tempo, todos os inimigos da globalização, que são muitos - e, em geral, movidos por premissas bem fundamentadas e por uma dose legítima de irritação.Por outro lado, Jospin não podia deixar que a anarquia se estabelecesse na França à vista de todos. Por isso, hoje pela manhã, os manifestantes foram reprimidos pelos policiais. Isso, porém, são só aparências. Com relação aos transgênicos, os cientistas, pouco suspeitos de estarem a soldo dos americanos, de trustes como os da Monsanto e de outras empresas, estimam que as experiências feitas com organismos geneticamente modificados são indispensáveis, se não para determinar seu grau de eficácia, inutilidade ou perigo, pelo menos para se saber se são inofensivos.São três os argumentos propostos pelos homens de ciência. Em primeiro lugar, não se pode condenar o que não se conhece. Portanto, é preciso prosseguir com as experiências e deixar definitivamente de interditá-las depois de começadas (essa também é posição do governo Jospin). Em segundo lugar, é possível que esses organismos tragam consigo, além de alguns perigos, virtudes da máxima importância, de modo especial no que se refere à ajuda à agricultura dos países pobres, à luta contra a fome desse "terceiro mundo" que Bové e os seus defendem quando denunciam as perversidades da globalização.Os organismos geneticamente modificados possuem também outros méritos. Eles permitem o desenvolvimento de substâncias úteis não apenas ao combate aos flagelos que atingem a flora e a natureza, mas também aos que atingem o homem. Nesse sentido, José Bové foi responsável pela destruição de uma experiência com organismos geneticamente modificados cujo propósito era descobrir um remédio contra a mucoviscidose.Em terceiro lugar, os cientistas defendem a idéia de que a pesquisa científica não deve levar em consideração critérios de ordem moral. Seu trabalho é pesquisar, e ponto final. As instâncias políticas, éticas, religiosas ou outras quaisquer, não poderiam ter o direito de autorizar ou não esta ou aquela experiência. É verdade que esse terceiro argumento (a total liberdade da ciência em face da moral) numa época de avanços fantásticos e terríveis (na biologia, por exemplo, no que respeita à reprodução e à fecundação, etc.) por si só demandará incontáveis debates.

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