Seguidores de supremacista oferecem recompensa por cabeça de líder negro

Vingança. Durante enterro de Eugene Terreblanche, membros de movimento pró-apartheid na África do Sul estipulam prêmio de US$ 280 mil para quem matar Julius Malema, integrante da Liga Jovem do partido governista, acusado de incitar o assassinato

Cristiano Dias, O Estado de S.Paulo

10 de abril de 2010 | 00h00

ENVIADO ESPECIAL

VENTERSDORP, ÁFRICA DO SUL

Em clima de revolta e nostalgia, foi sepultado ontem o líder supremacista branco Eugene Terreblanche, assassinado há uma semana. Em Ventersdorp, 200 quilômetros a oeste de Johannesburgo, além da saudade dos tempos do apartheid o que mais se ouvia em conversas de pé de ouvido era a recompensa de 2 milhões de rands (cerca de US$ 280 mil) pela cabeça de Julius Malema, líder da Liga Jovem do partido governista.

Homem mais odiado da África do Sul no momento, Malema é acusado de estimular o ódio racial quando canta em seus comícios a música Shoot the boer ("Atire no bôer"), uma figura de linguagem cuja tradução é simplesmente "mate um branco". Por causa da retórica incendiária, os extremistas o responsabilizam pela morte de Terreblanche.

Ontem, os tipos mais pitorescos da África do Sul desfilaram pelo local da cerimônia fúnebre. A cidade de 2 mil habitantes recebeu mais de 5 mil pessoas. Algumas viajaram 1.200 quilômetros, ou 15 horas de estrada, desde a Cidade do Cabo. O governo reforçou a segurança e montou uma operação de guerra para evitar distúrbios na região.

Na acanhada igreja protestante não cabia mais ninguém. Um sistema de som transmitia a voz de um pastor para a multidão que se espremia no jardim. Alguns empunhavam a "Prinsevlag", bandeira tricolor dos tempos do apartheid.

Segurando bandeiras do Transvaal, antiga república africâner, estavam Monty van Zyl e Louis Kryshaar. Os dois abandonaram o trabalho e vieram a Ventersdorp curtir o clima "familiar". "Sabe de uma coisa?", disse Kryshaar, que carregava uma pistola automática na cintura. "O Malema é um homem morto." Van Zyl ficou de pé assim que ouviu o nome de Julius Malema.

Kryshaar prosseguiu: "Conheço um fazendeiro em Delmas (vila perto de Pretória) que ofereceu 2 milhões de rands pela cabeça desse macaco. Dou a ele mais duas semanas de vida." Van Zyl rompe o silêncio: "Tenho vários amigos franco-atiradores nesse funeral. Eles estão loucos para matá-lo. É fácil. Basta um rifle e um tiro de 200 metros. Nunca ninguém saberá quem foi."

PONTOS-CHAVE

Sábado

Eugene Terreblanche, de 69 anos, defensor do regime de apartheid, é morto a pauladas em sua fazenda, perto da cidade de Ventersdorp, a 110 quilômetros de Johannesburgo

Domingo

Simpatizantes de Terreblanche interpretam morte de líder como "declaração de guerra dos negros contra brancos". Dirigente do movimento ameaça seleções que forem à Copa do Mundo

Sexta-feira

Membros do movimento de Terreblanche oferecem recompensa pela cabeça de Julius Malema por incitar o ódio racial nas canções em seus comícios

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