Segunda maior cidade argentina sofre saques em meio a greve de policiais

Moradores de Córdoba, no centro do país, usam barricadas e armas para combater onda de roubos que deixou um morto a bala e 60 feridos

Ariel Palacios,

04 de dezembro de 2013 | 20h27

BUENOS AIRES - Córdoba, segunda maior cidade da Argentina, enfrentou uma onda de saques entre a noite de segunda-feira, 2, e o meio-dia desta quarta-feira,4 . Os crimes começaram após o início da greve dos policias da província, que saíram às ruas para pedir melhores salários. Mais de 50 supermercados, armazéns e lojas foram saqueados em 12 horas. Duas pessoas morreram – uma em Córdoba, outra em Buenos Aires – em razão da violência.

 

Os saqueadores percorreram os centros comerciais de Córdoba a pé, carregando em bolsas e mochilas as mercadorias. Outros levaram os produtos em carros. Quadrilhas em motos realizaram saques relâmpagos e várias lojas foram incendiadas.

Os saqueadores também assaltaram residências em diversos bairros. No meio da violência que tomou conta da capital provincial, um jovem foi morto com um tiro nas costas e 60 pessoas ficaram feridas.

O governador cordobês, José Manuel de la Sota, peronista dissidente, de oposição, acusou o governo da presidente Cristina Kirchner de descaso. Ele afirmou que telefonou várias vezes para os ministros em Buenos Aires para pedir ajuda e ninguém atendeu a seus telefonemas.

Na capital argentina, o chefe do gabinete de ministros, Jorge Capitanich, afirmou que, "de acordo com a Constituição nacional", a segurança pública é um "assunto de competência das províncias". Segundo Capitanich, "que cada um se encarregue de suas responsabilidades".

Pouco depois, o secretário de segurança, Sergio Berni, anunciou ter recebido um fax com o pedido do governador De la Sota requerendo ajuda da Gendarmeria, a força de segurança federal especializada em dissuasão de manifestações. Berni reclamou: "O governador deixou para a última hora. A gente percebia que havia mal-estar na província desde dezembro passado".

"Algumas pessoas não nos consideram parte da Argentina", lamentou De la Sota. Na próxima semana, o governador prometeu ir a Buenos Aires para exigir que a Casa Rosada pague os US$ 216 milhões que o governo deve à província em impostos.

No início da tarde, De la Sota – um dos presidenciáveis do peronismo antikirchnerista – conseguiu um acordo salarial com as forças policiais provinciais, que se comprometeram a voltar ao trabalho de forma imediata. O governador ordenou à polícia que "persiga os delinquentes que saquearam" e o governo central anunciou o envio de 2 mil policiais à Província de Córdoba.

Em diversos bairros da cidade, os moradores defenderam-se montando barricadas e exibindo armas para dissuadir os assaltantes. Enquanto isso, saqueadores exibiam seus roubos pelo Facebook.

Segundo o vice-presidente da associação de supermercados, Benjamin Blanch, os primeiros ataques eram protagonizados por delinquentes. "Na sequência, veio a onda de cidadãos comuns roubar. Alguém tem de fazer um estudo social disso", lamentou.

O bispo auxiliar de Córdoba, Pedro Torres, afirmou que os saques "não foram por pobreza". Os saqueadores roubaram a comida de um depósito de refeitórios infantis. Córdoba foi o cenário de violentas manifestações de funcionários públicos, em 2009, quando o governo provincial ficou sem dinheiro para pagar o funcionalismo público. Na ocasião, Córdoba acusou o governo Kirchner de não repassar US$ 555 milhões que a União devia à província.

Em dezembro – na semana do Natal –, a província foi assolada por saques a supermercados. Na mesma ocasião, ocorreram roubos nas províncias de Rio Negro, Santa Fé e Buenos Aires.

Na madrugada desta quarta-feira, 4, quando os primeiros canais de TV começaram a mostrar as imagens dos saques em Córdoba, a centenas de quilômetros dali, na cidade de Glew, na Província de Buenos Aires, uma multidão invadiu o estabelecimento de Lin Jang, comerciante chinês que imigrou para a Argentina havia poucos anos. Ele resistiu a tiros e foi atacado pelos saqueadores, que atearam fogo no comércio. Jang morreu asfixiado.

A TV estatal omitiu durante horas os saques em Córdoba. Ao meio-dia, o canal exibia um programa de culinária que explicava como fazer hambúrgueres com lentilhas. No ano passado, durante um dos maiores panelaços contra a presidente Cristina, a emissora exibiu um documentário sobre animais silvestres.

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