Samuel Aranda/The New York Times
Samuel Aranda/The New York Times

Segunda onda de coronavírus ameaça a Espanha, alertam especialistas

Coronavírus está se espalhando muito mais rápido na Espanha do que em qualquer outro lugar da Europa

Patrick Kingsley e José Bautista /The New York Times, O Estado de S.Paulo

01 de setembro de 2020 | 12h05

MÁLAGA - Ao meio-dia de domingo, havia 31 pacientes dentro do principal centro de tratamento do coronavírus em Málaga, a cidade com a taxa de infecção por coronavírus com crescimento mais rápido no sul da Espanha. Às 12h15, o paciente 32 chegou em uma ambulância. Meia hora depois, veio o número 33.

A lata de lixo perto da porta transbordou de máscaras e luvas cirúrgicas azuis. Parentes zanzavam em silêncio do lado de fora - um deles chorando, outro sentindo uma espécie de déjà-vu. “Meu cunhado pegou o vírus na primavera”, disse Julia Bautista, uma administradora aposentada de 58 anos que esperava notícias no domingo de seu pai de 91 anos. “Lá vamos nós de novo”, acrescentou ela.

Se a Itália foi o prenúncio da primeira onda da pandemia de coronavírus na Europa em fevereiro, a Espanha é o presságio de sua segunda onda.

A França também vê o aumento do número de casos, assim como partes da Europa Oriental, e os casos estão aumentando na Alemanha, Grécia, Itália e Bélgica também. Na semana passada, no entanto, a Espanha registrou o maior número de novos casos no continente - mais de 53 mil. Com 114 novas infecções por 100 mil pessoas nesse período, o vírus está se espalhando mais rápido na Espanha do que nos Estados Unidos, mais de duas vezes mais rápido do que na França, cerca de oito vezes a taxa na Itália e no Reino Unido, e 10 vezes mais que na Alemanha.

Bloqueio rígido, reabertura rápida

A Espanha já era um dos países mais afetados da Europa, e agora tem 440 mil casos e mais de 29 mil mortes. Mas depois de um dos bloqueios mais rígidos do mundo, que impediu a disseminação do vírus, o país teve uma das reaberturas mais rápidas. 

O retorno da vida noturna e das atividades em grupo - muito mais rápido do que a maioria de seus vizinhos europeus - contribuiram para o ressurgimento da epidemia. Agora, enquanto outros europeus ponderam sobre como reiniciar suas economias, os espanhóis se tornaram os primeiros indicadores de como uma segunda onda pode acontecer, o quão forte ela pode ser e como pode ser contida.

“Talvez a Espanha seja o um exemplo do que pode acontecer”, disse o Prof. Antoni Trilla, epidemiologista do Instituto de Saúde Global de Barcelona. “Muitos países podem nos seguir - mas espero que não na mesma velocidade ou com o mesmo número de casos que enfrentamos.”

Com certeza, médicos e políticos não estão tão apavorados com a segunda onda da Espanha quanto ficaram com a primeira. A taxa de mortalidade é cerca de metade da taxa no auge da crise - caindo para 6,6% em relação ao pico de 12% em maio.

A idade média dos pacientes caiu de 60 anos para cerca de 37 anos. Os casos assintomáticos são responsáveis por mais de 50% dos resultados positivos, o que se deve em parte a um aumento de quatro vezes nos testes. E as instituições de saúde se sentem muito mais bem preparadas.

“Agora temos experiência”, disse a médica María del Mar Vázquez, diretora do hospital em Málaga onde o pai da Sra. Bautista estava sendo tratado. “Temos um estoque muito maior de equipamentos, temos protocolos em vigor”, disse Vázquez. “Os hospitais ficarão lotados - mas estamos prontos.”

Segunda onda

No entanto, parte do hospital ainda é um canteiro de obras - os empreiteiros ainda não terminaram a reforma da ala do hospital que trata de pacientes com coronavírus. Ninguém esperava a segunda onda por pelo menos mais um mês. E os epidemiologistas não sabem ao certo por que chegou tão cedo.

As explicações incluem um aumento em grandes reuniões familiares; o retorno do turismo em cidades como Málaga; a decisão de devolver a responsabilidade pelo combate ao vírus às autoridades regionais no final do bloqueio nacional; e falta de moradia adequada e cuidados de saúde para os imigrantes.

O aumento também foi atribuído ao renascimento da vida noturna, que foi reintegrada mais cedo e com restrições mais flexíveis do que em muitas outras partes da Europa. “Temos esse fator cultural relacionado à nossa rica vida social”, disse Ildefonso Hernández-Aguado, ex-diretor-geral de saúde pública do governo espanhol. “As pessoas são próximas. Gostam de se conhecer e interagir”.

Por várias semanas, em lugares como Málaga, boates e discotecas foram autorizadas a abrir até as 5 da manhã, enquanto os políticos regionais tentavam reviver uma economia dependente de turistas. Para curtir a vida noturna, eles só podiam dançar ao redor de uma mesa com amigos, em vez de se misturar com estranhos - mas as regras nem sempre eram respeitadas.

Em um incidente notório no início de agosto, um artista foi filmado cuspindo em dançarinos em uma pista de dança lotada em um clube de praia nos arredores de Málaga. O local foi fechado, todas as casas noturnas foram obrigadas a fechar duas semanas depois e os bares agora devem encerrar o expediente 1h da manhã. Mas críticos temem que as restrições ainda sejam muito flexíveis.

Enquanto as camas continuavam a encher nos hospitais de Málaga neste fim de semana, os moradores ainda se amontoavam em bares ao longo de praias até bem depois da meia-noite. Em alguns bares, as mesas estavam bem juntas - muito mais próximas do que as regras atuais de dois metros permitem.

Na hora que os locais fecham, as pessoas saíam para as praias e pontões, a maioria sem usar máscaras. Lá, reúnem em grupos de mais de 20 pessoas - uma visão normal durante qualquer outro verão espanhol, mas muito maior do que as reuniões de 10 ou menos agora permitidas por lei.

Alguns eram adolescentes que disseram ter se recuperado de uma forma branda do vírus e que agora se consideravam imunes. Outros sentiram que as restrições à pandemia foram uma reação exagerada. “Não acho que a covid seja real”, disse Victor Bermúdez, um ajudante de loja de 23 anos em uma reunião matinal em um pontão de praia. “É real - mas não é tão sério quanto dizem. É tudo um plano para matar os pobres e aumentar a fortuna dos ricos.”

Abordagens diferentes em cada região

Durante o bloqueio, o governo central definiu uma agenda clara. Mas com o levantamento do estado de emergência no final de junho, certos poderes foram devolvidos a cada um dos 17 governos regionais da Espanha, levando a uma abordagem desconexa e confusa. Quando as regiões tentaram impor restrições à vida local, algumas de suas decisões foram anuladas por juízes locais, que argumentaram que apenas o Parlamento central tinha o poder de introduzir tais medidas.

“Não temos os instrumentos jurídicos que nos garantem a capacidade de tomar decisões”, disse Juan Manuel Moreno, presidente do governo regional da Andaluzia, região onde fica Málaga. O debate também se tornou parte de um conflito acirrado sobre a Constituição espanhola que vem fermentando por mais de quatro décadas. 

Para federalistas e separatistas catalães, por exemplo, o desastre mostra como o poder nunca foi devidamente devolvido após a morte em 1975 do ditador Francisco Franco. Para os nacionalistas espanhóis, isso mostra como o processo de descentralização já foi longe demais.

“Há uma espécie de guerra acontecendo para mostrar que tipo de sistema político é melhor”, disse Nacho Calle, editor do Maldita, um importante serviço de verificação de fatos. A abordagem descentralizada levou a um sistema gradativo de rastreamento de potenciais vítimas de coronavírus.

Algumas regiões empregam vários milhares de rastreadores para verificar pessoas que podem ter entrado em contato com infectados, enquanto outras regiões contrataram apenas algumas dezenas - diminuindo a taxa em que pacientes em potencial são instruídos a entrar em quarentena.

E mesmo em regiões com grande número de rastreadores, como a Andaluzia, os profissionais de saúde no local relatam que o processo ainda é muito lento e com falta de pessoal em alguns locais. Francisca Morente, uma enfermeira em uma clínica de Málaga, foi uma das centenas de enfermeiras locais destacadas neste verão para trabalhar como rastreadora devido à falta de pessoal na unidade oficial de rastreamento de seu distrito.

Mas mesmo agora, Morente é uma das cinco rastreadoras que trabalham em sua clínica - não o suficiente para fazer as centenas de ligações diárias que um serviço de rastreamento adequado requer. E mesmo depois que ela consegue rastrear pacientes com coronavírus em potencial, esses pacientes ainda precisam esperar uma semana até que seus testes sejam processados, por causa de gargalos nos laboratórios locais.

“Precisamos de mais rastreadores e mais recursos. Precisamos de uma unidade rastreadora designada em cada clínica, em vez deste sistema temporário que temos no momento.”

A falta de apoio institucional para migrantes sem documentos também contribuiu para a segunda onda, de acordo com alguns especialistas. Alguns surtos recentes começaram entre fazendeiros estrangeiros que viviam em apertadas acomodações comunitárias. Proibidos de buscar seguro-desemprego e sem contratos de trabalho formais, os migrantes sem documentos não podem tirar folga do trabalho facilmente se estiverem doentes.

Nem podem pagar os tipos de casas que lhes permitiriam isolar-se facilmente. “Se eu tiver que ficar em quarentena, não poderei trabalhar”, disse María Perea, uma faxineira colombiana de 50 anos que esperava na segunda-feira os resultados de um teste de coronavírus. “E se não posso trabalhar, não tenho dinheiro.”

Mas, em geral, os médicos dizem que a Espanha está em uma posição muito mais forte para combater o vírus do que em março. A coordenação nacional está melhorando - o governo central concordou na semana passada com um acordo para enviar 2 mil soldados como rastreadores.

A velocidade dos testes estão acelerando - em Málaga, o maior hospital pode processar testes em uma única manhã graças à recente compra de uma série de robôs. Do outro lado da rua, um hospital improvisado construído com pressa em abril está vazio, pronto para um aumento no número de casos.

“Não é como a primeira onda”, disse Carmen Cerezo, 38, uma atendente de trem esperando do lado de fora do hospital de Málaga enquanto seu pai fazia o exame de coronavírus. "Estamos mais calmos agora”, disse ela.

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