Ed Jones/AFP
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Segundo filho é uma opção apenas para quem tem dinheiro na China

Governo recolheu R$ 654 bilhões em multas desde 1980, no início da adoção de medidas restritivas

Cláudia Trevisan, Enviada Especial a Linyi, província de Shandong,

07 de julho de 2012 | 15h05

LINYI, PROVÍNCIA DE SHANDONG - "Se você tiver dinheiro ou bons contatos, você pode ter quantos filhos quiser", disse o mecânico Li, que tem um filho de 4 anos e um salário de 3.000 yuans (R$ 980,00), com o qual nunca conseguirá economizar os cerca de 40.000 (R$ 13 mil) necessários para um segundo filho.

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A possibilidade de pagamento de multa protege os que têm dinheiro da violência praticada contra os que não têm. "De maneira geral, os ricos não são submetidos a abortos forçados porque eles podem pagar a taxa de compensação social, mas os pobres tendem a ser obrigados a abortar", disse o demógrafo He Yafu, que se opõe à política de filho único.

Em sua estimativa, o governo recolheu 2 trilhões (R$ 654 bilhões) em multas desde 1980, no início da adoção das medidas restritivas. Se as regras fossem seguidas à risca, a China deveria ter uma população de 1,1 bilhão de pessoas, mas o número está em 1,3 bilhões, o que dá um "excesso" de 200 milhões de pessoas. Calculando uma multa média no período de 10.000 yuans por criança, He chegou aos 2 trilhões.

Segundo ele, os casos de violência diminuíram em anos recentes, com a expansão na cobrança de multas e a redução no número de filhos que cada família pretende ter. Isso se reflete no número de abortos realizados a cada ano. Em 1983 foram 14,37 milhões, número que caiu para 6,1 milhões em 2009. He disse não saber quantos desses procedimentos foram realizados contra a vontade das mães.

Cada vila rural chinesa tem um comitê responsável pela implantação da política de filho único. Nos locais visitados pela reportagem do Estado em Linyi há quadros nas ruas com os nomes dos casais, o número de filhos que possuem e a data em que as mulheres devem se apresentar para realizar o exame periódico de gravidez ou checar o posicionamento do DIU contraceptivo.

Nas cidades, os que sofrem o maior controle são os funcionários de empresas estatais, que podem perder o emprego caso tenham mais de um filho, além de pagar a multa. Mas com a expansão do setor privado e a multiplicação no número de empreendedores, é cada vez maior o universo dos que podem bancar o custo de um segundo ou terceiro filho.

A política de controle de natalidade foi adotada 1980, quando a total de habitantes da China se aproximava do 1 bilhão, quase o dobro dos 550 milhões que havia em 1950, logo depois da chegada do Partido Comunista ao poder.

Os líderes de Pequim se convenceram de que a explosão populacional ameaçava inviabilizar os esforços para melhoria da qualidade de vida dos chineses, já que exercia enorme pressão sobre as produções agrícola e industrial. Segundo o governo, o controle de natalidade evitou o nascimento de 300 milhões de pessoas e representou uma contribuição para o desenvolvimento sustentável de todo o planeta.

Em seu início, a política era muito mais estrita e permitia a cada casal ter apenas um filho, independentemente do sexo. Isso levou ao infanticídio de bebês mulheres por pais que queriam filhos homens. Com o tempo, o governo mudou as regras e permitiu que os moradores do campo tivessem um segundo filho se o primeiro fosse mulher. Na cidade, a situação permaneceu inalterada. Ao mesmo tempo, as autoridades proibiram que médicos revelassem o sexo do bebê durante os exames de ultrassonografia, em uma tentativa de coibir os abortos seletivos de meninas.

Mas a determinação foi insuficiente para evitar o agravamento do desequilíbrio sexual na população chinesa. O aborto sistemático de fetos femininos faz com que o país tenha um número muito maior de homens do que de mulheres. De acordo com o mais recente censo, realizado em 2010, a população masculina ultrapassa a feminina em 34 milhões de pessoas, número próximo do total de habitantes da Argentina.

 
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