Polícia Metropolitana de Londres / Reuters
Polícia Metropolitana de Londres / Reuters

Segundo suspeito de envenenar ex-espião Skripal também foi identificado como herói russo

Identificado como Alexandre Mishkin, o médico militar foi condecorado pelo presidente Putin, assim como o primeiro suspeito

O Estado de S.Paulo

09 Outubro 2018 | 19h40

O segundo suspeito de ter envenenado o ex-espião russo Serguei Skripal e sua filha, Yulia, na Inglaterra, havia sido condecorado pelo presidente Vladimir Putin em 2014. A informação foi dada nesta terça-feira, 9, pela Bellingcat, site inglês especializado em jornalismo investigativo.

O homem foi identificado pela página como Alexandre Yevguenievich Mishkin, um médico militar empregado pelo serviço de inteligência russo GRU. Mês passado, a polícia britânica o havia reconhecido como Alexander Petrov, nome que aparecia no passaporte que usou para viajar ao Reino Unido em março. Porém, o órgão havia alertado que possivelmente se tratava de uma identidade falsa.

"Foi condecorado como herói da Federação Russa no outono de 2014. Com este, já são dois heróis russos", garantiu Christo Grozev, membro da equipe da Bellingcat, em entrevista coletiva no Parlamento britânico. Inicialmente, o outro suspeito do envenenamento foi apresentado pela polícia do Reino Unido como Ruslan Boshirov. Depois, a Bellingcat o identificou como o coronel Anatoli Chepiga, oficial do GRU também condecorado.

As autoridades britânicas afirmaram em setembro que a intoxicação de Skripal havia sido praticada por dois agentes do GRU. O ex-espião russo e sua filha foram envenenados com novichok, uma substância neurotóxica, em Salisbury, no sudoeste do Reino Unido. Em junho, outras duas pessoas foram contaminadas com a mesma substância na cidade vizinha de Amesbury. Uma delas, uma mãe de família, morreu.

A Rússia tem negado qualquer envolvimento neste caso que desenrolou uma grave crise diplomática com Londres e seus aliados. No dia 12 do mês passado, Putin disse saber quem eram os dois acusados, mas assegurou que se tratavam de civis e que não haviam cometido nenhum crime. Depois, os dois homens foram entrevistados pela RT, TV pública russa, onde negaram ser agentes do serviço de inteligência e afirmaram que haviam viajado a Salisbury por turismo.

A embaixada russa em Londres também reagiu nesta terça-feira,  9."Seguem circulando informações em forma de vazamentos em meios com referência a fontes anônimas e investigações realizadas por ONGs . Isso somente confirma que as autoridades britânicas não têm a intenção de prosseguir a investigação no âmbito do direito internacional", afirmaram em relação às publicações da Bellingcat.

Os investigadores do site explicaram como seguiram os rastros do suspeito, com base em trabalho de coleta e comprovação de dados disponíveis na internet, em colaboração com os jornalistas da rede de investigação russa The Insider.

Segundo a Bellingcat, Alexander Mishkin nasceu em 13 de julho de 1979 em Loyga, um "pequeno povoado (...) perdido no meio do nada" na Rússia. Lá, viveu com sua avó até pelo menos 1995. Estudou Medicina na academia militar de São Petersburgo e foi recrutado pelo GRU antes de 2003. Desde 2009, vive em Moscou, sob a identidade Alexander Petrov.

Mishkin teria participado em operações secretas entre 2011 e 2013 na Transnístria (região do Leste Europeu) e na Ucrânia. Neste país, também teria feito parte de procedimentos militares, em 2014.

A equipe do site investigativo inglês fez contato com colegas da escola militar onde Mishkin se formou e duas pessoas confirmaram sua identidade. Um deles afirmou que "todo mundo na sala foi comunicado para que não dissesse nada". Além disso, jornalistas da The Insider foram a Loyga, onde falaram com sete pessoas que confirmaram a identidade do médico.

"Sua avó, que o criou, tem uma fotografia que todos no povoado viram, em que o presidente Putin está apertando a mão de Mishkin e lhe entregando a medalha", acrescentou Grozev.

Bellingcat é uma rede de jornalismo cidadão, especializada na coleta e análise de infromações disponíveis na internet. Foi fundada pelo britânico Eliot Higgins, de 39 anos, um balconista desempregado e autodidata em questões cibernéticas, que ficou conhecido por suas investigações sobre a Guerra da Síria. / COM AFP

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