Segurança dos EUA começa na economia

Grupo criado para elaborar uma estratégia nacional crê que a principal atenção deve ser dada à área econômica, que caminha para o desastre, apesar da redução da recessão

WALTER PINCUS, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

14 de abril de 2010 | 00h00

Sua tarefa: criar uma estratégia de segurança nacional para os Estados Unidos. Assim, um grupo de 15 oficiais militares e funcionários do governo no Industrial College das Forças Armadas estudou a questão durante meses - e decidiu que a primeira consideração devia ser dada à economia, que, segundo descobriram, está rumando para um desastre, mesmo com o abrandamento da recessão.

O grupo do Seminar 11 concordou em seu relatório divulgado no mês passado que a economia é "a base de tudo".

Com os déficits públicos anuais dos Estados Unidos rondando US$ 1 trilhão e a expectativa de a dívida nacional mais que dobrar até 2020, o grupo - cujos membros incluíram oficiais do Exército, da Marinha e da Força Aérea americanos; civis do Departamento de Estado, do Pentágono e da Agência para o Desenvolvimento Internacional dos EUA (Usaid); e um oficial da Marinha mexicana - decidiu que ações duras devem ser adotadas a partir do próximo ano.

Sua primeira recomendação política foi "limitar o crescimento dos benefícios sociais" e o grupo sugeriu passos a serem tomados com relação aos dois maiores programas de benefícios: previdência social e Medicare.

O grupo revelou, como outros, que o problema fundamental da previdência social é que, com o tempo, menos trabalhadores estarão pagando impostos sobre a folha de pagamento para sustentar muito mais aposentados. O grupo reportou que, em 2017, o superávit anual da previdência social se tornará um déficit anual. E, em 2041, se não forem feitas mudanças, o Fundo de Seguridade Social ficará vazio.

Uma projeção do Escritório de Orçamento do Congresso divulgada uma semana depois do relatório do grupo mostrou que o fundo está em pior forma ainda por causa das aposentadorias precoces e do alto desemprego. Ele sofrerá um déficit de US$ 29 bilhões neste ano fiscal - sete anos antes do tempo. O fundo continuará em déficit por mais três anos antes de mostrar um superávit em 2014 e 2015, voltando ao vermelho em 2016.

O plano de mudança de quatro passos do grupo do seminário é franco.

Ele quer desacelerar o ritmo de aumento dos benefícios, vinculando seu crescimento ao índice de preços e não ao índice salarial, pois os salários tendem a crescer mais depressa que os preços.

Outra proposta é aumentar o escopo do imposto descontado na folha para a previdência social. Atualmente, o imposto é aplicado a ganhos anuais de até US$ 106,8 mil. Remover esse limite significaria que os indivíduos que ganharem mais que isso pagariam imposto de 6,2% sobre tudo que ganharem, e os empregadores pagariam sua parte sobre os salários mais altos. Uma estimativa de fora é que aumentar gradualmente a cobertura do imposto em folha até 100% dos ganhos cobriria os déficits projetados.

O grupo também propôs um novo aumento na idade de aposentadoria. Pelas emendas para a previdência social de 1983, a idade para receber pagamentos plenos da aposentadoria está aumentando lentamente para 67 até 2027. Mas, como a expectativa de vida aumentou em 15 anos nos 70 anos desde que os pagamentos da previdência social começaram, um aumento mais rápido e maior para 69 seria uma medida justa.

O grupo sugeriu também "testes de meios" para a previdência social.

Uma forma de fazer isso é fornecer pagamentos menores aos que ganham mais, encorajando-os, assim, a poupar mais para a aposentadoria e possivelmente se aposentar mais tarde na vida.

As correções para o Medicare não são menos drásticas. O grupo assinala que até 2030 o número de participantes aumentará 72% e a relação de trabalhadores pagantes do imposto do Medicare por beneficiário cairá 35%. A solução de três passos do grupo começa com um aumento dos impostos em folha para a Parte A do Medicare do atual 1,45% pago pelo trabalhador e 1,45% pago pelo empregador para 1,6% cada.

A lei da reforma de saúde recém-aprovada aumenta o imposto do Medicare para indivíduos com rendas superiores a US$ 250 mil em 0,09%.

Outro passo que o grupo recomenda é aumentar os prêmios da Parte B do Medicare, e isso também já está sendo feito com base nos custos mais altos do programa.

A última proposta do grupo é "instituir meios para testar as margens" para o Medicare. A lei de 2003 sobre remédios controlados do Medicare adotou uma forma de teste de meios: indivíduos com rendas mais altas pagaram mais pela cobertura da Parte B. E a administração de George W. Bush tentou fazer o Congresso aplicar um teste de meios para a Parte D, a seção de remédios controlados.

Na semana passada, o grupo obteve algum apoio do presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), Ben Bernanke. Ele disse a uma plateia em Dallas que, "para evitar déficits orçamentários grandes e insustentáveis, a nação acabará tendo de escolher entre impostos mais altos, modificações em programas de benefícios e no Medicare, gastar menos em tudo, da educação à defesa, ou alguma combinação dos itens acima". O grupo Seminar 11 compilou traços gerais de uma solução. / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

É COMENTARISTA DE SEGURANÇA NACIONAL E GANHADOR DE VÁRIOS

PRÊMIOS, ENTRE ELES O PULITZER

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