AP Photo/Kamran Jebreili
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Segurança pode não ser motivo para veto a eletrônicos

Proibição de equipamentos eletrônicos a bordo deve favorecer companhias aéreas dos EUA na competição com empresas do Golfo

HENRY FARRELL & ABRAHAM NEWMAN / WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

22 de março de 2017 | 05h00

A partir de sábado, aviões com destino aos EUA partindo de 10 aeroportos em oito países de maioria muçulmana não poderão transportar iPads, laptops ou qualquer aparelho de comunicação maior do que um smartphone na cabine do avião. Por que os EUA adotaram a medida e como vão se livrar das consequências?

O governo alegou se tratar de uma medida de segurança. Mas, como Demitri Sevastopulo e Robert Wright, do Financial Times, afirmaram, observadores não americanos duvidam dessa explicação, observando que os EUA não informaram se a proibição tem por base em informações de inteligência recentes ou preocupações antigas. Também não explicaram por que os aparelhos eletrônicos na cabine são motivo de preocupação e os que estão no compartimento de bagagem não.

Talvez a proibição não tenha a ver com segurança. Três das empresas aéreas incluídas na medida - Emirates, Etihad Airways e Qatar Airways - são acusadas há muito tempo pelas suas concorrentes americanas de receber enormes subsídios dos governos de seus países. Há meses essas empresas estão preocupadas com algum tipo de retaliação por parte do presidente Trump. 

As três companhias, como as outras incluídas na ordem, devem perder muitos clientes que lhes propiciam mais lucro - indivíduos que viajam em primeira classe e na classe executiva. Essas pessoas provavelmente querem trabalhar enquanto viajam - razão pela qual estão dispostas a pagar por um bilhete de primeira classe ou classe executiva, onde podem trabalhar com mais conforto. E não gostarão de ter de usar apenas seus smartphones ou mesmo não poder trabalhar. Portanto, muitas deixarão de usar companhias aéreas do Golfo e passarão a viajar em aviões de empresas americanas.

Como nota o jornal, a ordem não afeta apenas os voos diretos das empresas aéreas para e dos EUA - ela atinge aeroportos que são centros de conexões que estão na base dos seus modelos de negócios. Essas companhias aéreas não transportam apenas passageiros diretamente da região do Golfo para os EUA, mas também de muitas outras destinações, transferindo-os de um avião para outro nos seus “hubs”. Esse é um modelo padrão para voos de longa distância, propiciando grandes economias para as empresas. Mas ele também causa vulnerabilidades. Se concorrentes ou Estados não amigos conseguirem debilitar ou deteriorar o “hub”, o dano econômico é enorme.

Esse pode ser um caso de transformação da interdependência em arma. Vivemos num mundo interdependente onde as redes globais se propagam por todos os países com enormes benefícios, mas também grandes disparidades de poder. À medida que essas redes crescem, elas tendem a concentrar influência e vulnerabilidade em alguns locais-chave, criando enormes oportunidades para Estados, órgãos fiscalizadores, atores não estatais que têm alguma influência local.

Nesse contexto, os EUA provavelmente aproveitaram seu controle sobre o acesso aos aeroportos americanos que são pontos de conexão importantes na rede global de transporte aéreo entre diferentes destinos. Estão usando esse controle para investir contra as vulnerabilidades de outros atores também ligados a redes, atacando os centros de conexão de suas redes (os aeroportos “hub”) e causando um enorme prejuízo para eles.

As empresas aéreas do Golfo tentaram se defender contra ataques políticos das suas concorrentes americanas recorrendo aos princípios do livre-comércio. O problema é que as regras do livre-comércio, como as baixadas pela OMC, não se aplicam às companhias aéreas.

Se o problema ocorresse num setor diferente, seria um caso interessante. Os Estados podem estabelecer algumas isenções às regras comerciais internacionais quando acham que sua segurança está em risco. É bastante provável que o governo Trump baixe mais normas unilaterais justificando-as em nome da segurança nacional, mas que serão provavelmente motivadas por um protecionismo. É o que podemos concluir. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

FARREL É PROFESSOR DE CIÊNCIAS POLÍTICAS E TEMAS INTERNACIONAIS NA GEORGE WASHINGTON UNIVERSITY. NEWMAN É PROFESSOR DE POLÍTICA INTERNACIONAL NA GEORGETOWN UNIVERSITY

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