Ahmad Al-Basha/AFP
Ahmad Al-Basha/AFP

Seis anos de conflito no Iêmen vistos de uma sala de aula

Danificadas por ataques ou usadas pelos militares, mais de 2.500 escolas foram fechadas no país só em 2019

Redação, O Estado de S.Paulo

10 de outubro de 2020 | 04h00

A escola Al-Wehdah, perto da cidade de Taiz, no sudoeste do Iêmen, recebe seus alunos no início do ano letivo com paredes derrubadas por bombardeios, telhados quebrados e vigas aparentes, em um país devastado por seis anos de guerra.

Não há portas, nem janelas, nem mesas.

As crianças se contentam com cadernos velhos para assistir às aulas ministradas por bravos professores sob tetos de concreto que correm o risco de desabar a qualquer momento.

Ali Sultan, pai de um estudante, mostra à Agência France Press uma parede onde se lê em vermelho: "perigo de minas".

Parcialmente destruída por um bombardeio em 2016, a escola está no meio de um campo minado que foi limpo para permitir que os alunos retornassem gradualmente.

"Tivemos que tomar uma decisão difícil: ou os deixávamos em casa, ou corríamos o risco de vê-los estudando sob os escombros", desabafa Sultan.

"Passamos momentos muito difíceis", comenta o pai do aluno, referindo-se aos combates ocorridos na cidade entre as forças pró-governo e os rebeldes huthis, que não hesitam em atirar em qualquer alvo para responder aos ataques.

Segundo o diretor de Educação de toda província de Taiz, Abdel Wasseh Chaddad, apenas na capital homônima, "pelo menos 47 escolas foram totalmente destruídas nos combates".

"Perigo de desabamento"

Chaddad também comenta a difícil decisão que teve de tomar. Ele afirma ter sido obrigado a fechar as escolas destruídas e a encaminhar os alunos para os locais que poderiam recebê-los, mesmo que isso significasse, para alguns deles, percorrer vários quilômetros até chegar a seu destino.

Sem quadro, Jamila al Wafi escreve o tema da aula a lápis em uma viga de suporte.

Sentados no chão, os alunos ouvem atentamente e escrevem em seus cadernos. Após a aula, saem da sala de aula, localizada no primeiro andar, por um teto desmoronado que serve de escada.

"Temos 500 alunos", assegura Wafi à Agência France Press, vestida de preto e com o rosto coberto por um niqab, esclarecendo que meninos e meninas frequentam as aulas em separado.

"Pedimos a todo o mundo e aos empresários que salvem esta escola que pode desabar a qualquer momento", implora.

No pátio, meninos e meninas fazem fila em silêncio, enquanto esperam para entrar nas salas de aula, ou para praticar esportes.

Em todo Iêmen, mais de 2.500 escolas foram fechadas em 2019, segundo a ONU. Destas, pelo menos dois terços foram danificadas nos ataques; 27%, fechadas; e 7%, usadas pelos militares, ou como abrigos para desabrigados.

Duas das sete milhões de crianças iemenitas em idade escolar não estão na escola, ainda conforme as Nações Unidas.

A guerra no Iêmen é travada entre os rebeldes huthis, apoiados pelo Irã e que controlam Sanaa e grande parte do norte do país, e o governo, apoiado militarmente por uma coalizão liderada pela Arábia Saudita.

O conflito matou milhares de pessoas, a maioria civis, de acordo com ONGs internacionais, e levou ao que a ONU descreveu como a pior crise humanitária do mundo. 

Cerca de 3,3 milhões de pessoas tiveram de partir, e mais de 24 milhões - ou seja, mais de 80% da população - precisam de assistência humanitária, adverte a ONU. /AFP

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