Wakil Kohsar/ AFP
Wakil Kohsar/ AFP

Seis coisas que mudaram na vida das mulheres no Afeganistão desde o último governo Taleban

Acesso a educação e ao trabalho foram ampliados; em 2018, país teve número recorde de candidatas

Redação, O Estado de S.Paulo

19 de agosto de 2021 | 10h00
Atualizado 19 de agosto de 2021 | 10h15

Quatro dias depois do Taleban tomar o poder de fato no Afeganistão, pôsteres e fotos de mulheres que adornavam as janelas da capital, Cabul, foram apagados ou vandalizados. Com o retorno do Taleban ao poder, aumentam os temores de que as muitos grupos - especialmente as mulheres - percam as liberdades que conquistaram desde 2001.

O primeiro regime do Taleban (1996-2001) foi marcado por violações de direitos humanos. Meninas foram proibidas de frequentar a escola, mulheres não podiam trabalhar ou sair de casa sem um acompanhante do sexo masculino - e as acusadas de adultério eram apedrejadas ou açoitadas. A rigorosa interpretação da Sharia (lei islâmica) levou o grupo insurgente a criar inclusive uma polícia religiosa.

Após o fim do regime, com a presença das tropas da coalizão internacional liderada pelos EUA, uma nova realidade começou a prosperar no país. Uma das coisas visíveis em Cabul foi a proliferação de salões de beleza, antes proibidos. Eles foram alguns dos primeiros alvos quando o Taleban entrou na capital no último domingo, 15.

Na tentativa de transmitir uma imagem de moderação e de mudança, o Taleban chegou a se comprometer a "deixar as mulheres trabalharem", mas "respeitando os princípios do Islã", sem explicar exatamente o que isso significa na prática. Um de seus porta-vozes, Suhail Shaheen, afirmou que a burca não seria obrigatória e que as mulheres poderão frequentar a universidade, e as meninas poderão frequentar a escola.

Entretanto, muitos afegãos e representantes da comunidade internacional não escondem o ceticismo em relação a essas promessas, principalmente pelos relatos de veículos de comunicação locais sobre mulheres solteiras ou viúvas sendo obrigadas a se casar com combatentes durante o avanço militar do grupo pelo país.

Veja seis mudanças que ocorreram desde a queda do grupo insurgente - e que agora estão em risco:

Educação

Quando o Taleban governou o Afeganistão, entre 1996 e 2001, proibiu que meninas com mais de oito anos recebessem educação.

O número de meninas matriculadas na escola primária no Afeganistão aumentou para 33% em 2017, de menos de 10% em 2003, de acordo com o Banco Mundial, enquanto a taxa de matrículas em escolas secundárias foi de 39% em 2017, ante 6% em 2003.

A Universidade de Cabul começou a lecionar um mestrado em estudos de gênero e mulheres em 2015.

Trabalho

O número de mulheres afegãs que trabalham aumentou de 15% em 2001 para 22% em 2019, de acordo com o Banco Mundial, com as mulheres abrindo negócios em todos os setores, desde moda e beleza até contabilidade e engenharia elétrica.

As mulheres estavam cada vez mais visíveis em todos os setores da sociedade, incluindo jornalismo, saúde e aplicação da lei.

Desde que o Taleban assumiu Cabul no domingo, trabalhadores retiraram imagens de mulheres das fachadas de lojas e salões de beleza. Sob o último regime do Taleban, as mulheres foram proibidas de trabalhar e milhares perderam seus empregos.

O porta-voz do Taleban, Zabihullah Mujahid, disse que as mulheres terão permissão para trabalhar "dentro da estrutura do Islã" sob o novo regime.

Quando o Taleban assumiu o controle da cidade de Kandahar, no sul do país, em julho, os combatentes ordenaram que nove mulheres que trabalhavam no Banco Azizi partissem, dizendo que parentes do sexo masculino poderiam tomar seu lugar, disseram três mulheres.

Roupas

Sob o primeiro regime do Taleban, as mulheres tinham que usar burca e ser acompanhadas por um parente do sexo masculino fora de casa.

Embora a burca fosse usada antes do Taleban, não era uma peça obrigatória.

Com o grupo buscando apresentar uma faceta mais moderada agora que voltou ao poder, porta-vozes afirmam que as mulheres precisarão usar hijabs - peças que geralmente cobrem a cabeça e o cabelo, mas permitem que o rosto seja visto.

Direitos legais

Em 2009, o governo afegão aprovou a lei de Eliminação da Violência contra as Mulheres, que proibiu 22 abusos contra as mulheres, incluindo estupro, agressão e casamento forçado, e estabeleceu tribunais especiais com juízas.

Mas sua implementação tem sido irregular, muitas vezes deixando para trás meninas e mulheres rurais afegãs.

A Embaixadora da Irlanda, Geraldine Byrne Nason, alertou esta semana sobre "relatos múltiplos e confiáveis ​​de execuções sumárias, casamento forçado e violência sexual e baseada no gênero."

Direitos reprodutivos

Na primeira década após a queda do Taleban, o uso de métodos modernos de planejamento familiar dobrou para 22% dos casais, contribuindo para uma queda nas mortes no parto, de acordo com o Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA).

O uso de anticoncepcionais permanece limitado, pois muitas pessoas preferem ter famílias numerosas e as mulheres lutam para ter acesso a serviços de saúde básicos, levando a uma das taxas de mortalidade materna mais altas do mundo.

Como mais de 75% do orçamento do Afeganistão foi financiado por doadores internacionais, de acordo com a Human Rights Watch, não está claro o que acontecerá com os serviços de saúde agora.

Poder político

Desde 2001, as mulheres desempenham papéis importantes na política, com a cirurgiã Suhaila Siddiq servindo como ministra da saúde em 2001, Habiba Sarabi se tornando a primeira governadora em 2005 e Zarifa Ghafari se tornando a primeira prefeita em 2018.

Em 2018, um recorde de 417 mulheres candidatas disputou assentos em todo o país, mesmo com ataques suicidas mortais em comícios eleitorais tentando dissuadir os eleitores.

Antes de o Taleban assumir no domingo, as mulheres detinham 27% dos assentos na Câmara dos Deputados, por causa de uma cota constitutiva - excedendo a média global de 25%, de acordo com a União Interparlamentar.

Enamullah Samangani, membro da comissão cultural do Taleban, pediu na terça-feira que as mulheres se unissem ao novo governo. "Todos os lados deveriam aderir", disse ele em entrevista à televisão. /AFP e REUTERS

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