Seja o resultado qual for, Argentina será governada por ricos

Os argentinos vão às urnas amanhã para escolher entre Daniel Scioli e Mauricio Macri em uma decisão que tem sido descrita como a escolha entre a continuidade e a mudança. Escolhido para suceder a presidente Cristina Fernández Kirchner, Scioli apresenta-se como o candidato da continuidade, prometendo manter as conquistas econômicas e sociais creditadas à presidente e seu antecessor, Néstor Kirchner. Já Macri, prefeito de Buenos Aires, se intitula o candidato da mudança. Desde o seu bom resultado no primeiro turno, em 25 de outubro, políticos e especialistas em Argentina têm discutido cada vez sobre o que os eleitores decidirão. Mas, fundamentalmente, essa decisão já foi tomada.

O Estado de S.Paulo

21 de novembro de 2015 | 02h02

No dia 24 de outubro, os argentinos escolheram uma nova Câmara dos Deputados, a câmara baixa do Congresso. Alguns assentos mudaram de mão. O partido de Scioli perdeu 26 cadeiras e o de Macri ganhou 21. Além disso, dos 257 assentos na Câmara, 130 serão ocupados por novos deputados. Qual a aparência da nova Câmara dos Deputados? Que tipo de gente vai estabelecer a política nacional na Argentina nos próximos dois anos?

Assim como a Câmara anterior, a nova será majoritariamente composta por ricos. Apenas 9% dos deputados na nova Câmara são da classe trabalhadora. Num país onde cerca de 70% dos trabalhadores tiram seu sustento de atividades manuais ou têm empregos na indústria de serviços - na construção civil, como diaristas ou empregados domésticos - 91% dos deputados recém-eleitos são profissionais de colarinho branco - advogados, engenheiros, médicos e empresários.

No caso da presidência, os dois candidatos são ricos. Scioli é um atleta de sucesso que virou empresário. Macri, nascido numa família rica, é um empresário milionário e ex-presidente do Boca Juniors, um dos maiores clubes de futebol do país. Independentemente do que aconteça no domingo, a Argentina vai continuar a ser governada pelos ricos.

Mas faz diferença se tão poucos deputados argentinos são da classe trabalhadora? Costumamos supor que não, mas estudiosos têm cada vez mais afirmado que os políticos respondem muito mais às opiniões de eleitores ricos do que às dos pobres.

Na Argentina, Zach Warner e eu estudamos uma rara pesquisa que avaliou os eleitores e uma amostra dos políticos do país. Usando esses dados, observamos o grau em que eleitores e políticos tinham opiniões parecidas a respeito de uma série de questões políticas. Assim, mensuramos o grau do que cientistas políticos chamam de congruência entre eleitores e seus representantes eleitos. Também separamos as opiniões dos eleitores entre os que são ricos e pobres. O que descobrimos é desanimador: as atitudes dos políticos argentinos são consistentemente próximas da visão dos eleitores ricos.

Obviamente, essas são apenas opiniões que os políticos expressam numa pesquisa. Quando a questão é a produção de políticas, os legisladores enfrentam uma série de pressões externas que silenciam a influência de suas próprias opiniões como partidos, eleitores, grupos de interesse movimentos sociais e afins. Apesar disso, Nick Carnes e eu descobrimos que as opiniões pessoais dão forma à agenda polícia.

Quando observamos atentamente uma sessão legislativa na Argentina, descobrimos que os integrantes da casa vindos das classes trabalhadoras tentem a apresentar, de forma substancial, mais projetos econômicos progressivos. Numa típicas sessão, a falta de legisladores das classes trabalhadoras se traduz na apresentação de cerca de 50% menos projetos progressistas.

É impossível saber exatamente como esses projetos não apresentados afetam as políticas econômicas, mas sabemos que a agenda política teria uma aparência mais progressiva. Verifica-se que o fato de haver tão poucos membros das classes trabalhadoras no Legislativo acaba por direcionais as políticas para as preferências dos ricos. O fato de os legisladores serem oriundos, de forma desproporcional, de famílias ricas influencia a agenda econômica.

Nada disso acontece apenas na Argentina. Governos de todos o mundo são desproporcionalmente comandados por políticos ricos. Em toda a América Latina, apenas 10% dos legisladores nacionais vêm de famílias de classes trabalhadoras, embora 80% do eleitorado sejam dessa mesma classe. Este fenômeno não é novo. / TRADUÇÃO DE PRISCILA ARONE

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