Seleção de novos cardeais aumenta a possibilidade de um papa do Terceiro Mundo

A seleção de 31 novos cardeais pelo papa João Paulo II reforçou o perfil conservador do grupo que escolherá seu sucessor, mas também alargou-o geograficamente e deu a mais candidatos, incluindo os dos países em desenvolvimento, a chance de tornar-se o próximo papa, segundo especialistas.Os cardeais, novos e antigos, terão a primeira oportunidade de avaliar-se quando reunirem-se, dentro de três semanas, para o aniversário de 25 anos do pontificado de João Paulo II e para o consistório formal que dará aos novos cardeais seus novos barretes púrpuras ? e o evento está até sendo chamado um pré-conclave.?Haverá muita política subterrânea acontecendo nesse encontro?, diz Chester Gillis, catedrático do departamento de teologia da Universidade de Georgetown. ?Todo mundo está achando que este papado está muito perto de seu final. Os cardeais, entretanto, não terão outra chance de ficarem juntos novamente até o conclave.? O papa escolheu os 31 no sábado, elevando a pelos menos 135 o número de membros do Colégio de Cardeais em idade de votar, a elite da Igreja que irá eleger o próximo papa quando João Paulo morrer, quase certamente alguém dentro desse círculo.O Colégio tem, atualmente, 195 membros, mas apenas os com menos de 80 anos podem votar num conclave.A escolha de João Paulo II apresentou poucas surpresas e não alterou o perfil teológico dos eleitores, todos, a exceção de cinco, nomeados por ele no curso de seus 25 anos de papado. Eles seguem sua linha conservadora em assuntos capitais, como aborto e pena de morte.?Ele quer assegurar a continuidade e a ênfase desses temas no próximo pontificado e o meio mais seguro para isso é escolher, para o círculo de cardeais, bispos e arcebispos em concordância com suas prioridades fundamentais?, diz R. Scott Appleby, professor de história da Universidade de Notre Dame.Enquanto que a continuidade política já está praticamente assegurada no próximo papa, haverá mudanças de personalidade e estilo de governar, garante o reverendo Thomas Reese, editor da revista jesuíta America.?Por exemplo, os cardeais podem estar procurando por alguém que permita mais descentralização na tomada de decisões da Igreja, com mais poder sobre bispos e conferências de bispos que a cúria do Vaticano?, diz.Entretanto, nem todos os cardeais vêem-se como meros carimbos da política papal. O cardeal Karl Lehamnn esperou anos por seu barrete púrpura, a despeito de sua posição de chefe da poderosa Conferência Alemã de Bispos. Alguns viam a demora como uma demonstração de descontentamento com os bispos alemães, que querem que o Vaticano permita o divórcio e traga católicos separados de volta à Igreja.O cardeal Godfried Dannels, um belga visto como possível candidato ao pontificado, tem insistido na necessidade de maior ?colegiado? ? um código do Vaticano para mais democracia na Igreja muito centralizada de João Paulo II.Mas é principalmente na geografia que as escolhas de João Paulo II mudaram o Colégio de Cardeais. A África obteve três novos cardeais, de Gana, do Sudão ? que nunca tivera cardeal antes ? e da Nigéria. A América Latina também acrescentou mais três, do Brasil, México e Guatemala, assim como a Ásia, agora com novos cardeais da Índia, Japão e Vietnã.Mas, apesar disso, o chamado Terceiro Mundo perdeu terreno, porque João Paulo II aumentou o contingente total do eleitorado bem abaixo do máximo de 120.A Europa aumentou seu peso proporcional ligeiramente, agora ostentando 48,9% das cadeiras. A Itália ainda é, de longe, o maior bloco, com 23 cardeais em idade de votar, embora sua porcentagem total tenham caído desde o último conclave, como nota Reese. Quando João Paulo II foi eleito, havia 29 italianos entre os 80 membros do conclave, ou mais de 25%. Agora eles são menos que 16%.O polonês João Paulo II foi o primeiro papa não italiano em 455 anos e os observadores do Vaticano acham que, com a crescente globalização do Colégio de Cardeais, o próximo papa também deverá ser um não italiano, provavelmente dos países em desenvolvimento. Os latino-americanos são o maior bloco depois dos europeu e representam metade do 1 bilhão de católicos no mundo. Na África e na Ásia, a Igreja está promovendo atividades missionárias para expandir seus números.?A Igreja do século 21 será marrom e negra?, diz Appleby. ?A Igreja está crescendo rapidamente na África, é uma presença enorme na América Latina e está crescendo na Ásia, enquanto que na Europa e América do Norte está somente mantendo seus pequenos níveis de participação.?João Paulo II elegeu como prioridade de seu pontificado elevar mais cardeais dos países em desenvolvimento, aumentando a possibilidade de que um deles torne-se papa. O Colégio ainda é dominado, no entanto, por europeus e não há como prever como cada um votará, quando o processo secreto estiver em ação.?A possibilidade de um papado do Terceiro Mundo é mais provável, embora não de todo garantida?, diz Gillis. Um papa latino-americano pode ser uma mudança política para a ajudar a Igreja a conter as perdas de católicos para os cultos evangélicos, diz. Um papa africano, por outro lado, poderia colocar a Igreja em melhores condições para enfrentar desafios maiores, como a divisão cristãos-muçulmanos, em curso em muitos países africanos.

Agencia Estado,

29 de setembro de 2003 | 16h55

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