Sem abrigos, palestinos rezam por cessar-fogo

Famílias de Gaza têm medo de se aventurar em meio ao intenso bombardeio para buscar refúgio

ROBERTO SIMON , ENVIADO ESPECIAL , TEL-AVIV, ISRAEL , O Estado de S.Paulo

21 de novembro de 2012 | 02h02

A chuva de bombas de Israel sobre Bet Lahya, vilarejo do norte da Faixa de Gaza, colocou ontem o farmacêutico Hassan Hamouda diante de um amargo dilema. Ele sabia que deveria deixar sua casa e aceitar o abrigo de um amigo na Cidade de Gaza.

Mas, com Hamouda, moram 20 pessoas de sua família - incluindo crianças, mulheres e idosos - e ele não tinha coragem de se aventurar numa jornada pelas ruas sob o zunido e fogo intermitente de bombardeiros e disparos de drones israelenses.

"Estou torcendo muito por esse cessar-fogo, pois não há mais condições para nós. Estamos esgotados", disse o farmacêutico por telefone ao Estado.

Apenas na noite de segunda para terça-feira, Israel bombardeou pelo menos cem alvos em Gaza, uma faixa costeira estreita, de 360 km², onde vive mais de 1,5 milhão de palestinos, quase 50% com menos de 18 anos. Após uma semana de ofensiva militar na Faixa de Gaza, o número de mortos já ultrapassa 115 pessoas - cerca de 40 civis, segundo fontes médicas.

"Não sabemos o que vai acontecer nas próximas horas e isso traz uma sensação de desespero para nós, que somos civis e não temos nada a ver com a guerra", descreveu Hamouda. "O clima é de terror, puro terror", repetia o farmacêutico.

Segundo testemunhas, militantes do Hamas executaram seis homens em uma praça no centro de Gaza. Eles eram acusados de ser colaboradores de Israel e, deitados de rosto para o chão, foram atingidos por guerrilheiros encapuzados aos gritos de "espiões". Um cartaz com o nome dos supostos informantes foi colocado em um poste ao lado da praça.

Com aviões, drones e satélites de Israel sobre Gaza, são raras as aparições de insurgentes e mesmo de líderes políticos do Hamas à luz do dia. Segundo boatos nas ruas de Gaza, o comando da facção palestina estaria escondido sob o Hospital Al-Shifa, o maior do território.

Em várias regiões da Faixa de Gaza, a aviação israelense voltou a despejar avisos em árabe para que civis abandonassem suas casas. Mas, desta vez, os papéis vinham com um mapinha indicando a região de Al-Remal, no centro da Cidade de Gaza, como destino.

Segundo moradores, vários bairros do território palestino sofrem cortes constantes de luz e água.

Quando o Estado conversou com Nasrina Aziz, casada com um brasileiro, ela afirmou que estava havia oito horas sem água na torneira. Nasrina abandonou o campo de refugiados palestinos de Jabalyia, em Khan Yunes, centro de Gaza. O local, afirma ela, está sempre "no topo da lista" de alvos dos bombardeios de Israel.

Muitas famílias de Gaza abandonam suas casas e buscam lugares perto de hospitais e outros locais que trazem uma segurança relativa em meio aos bombardeios. Foi esse o caso de Abeer Douek, palestina de 30 anos nascida em São Paulo, que buscou abrigo na casa de uma família de amigos perto do Centro Médico Al-Quds

"Espero que os israelenses não ataquem aqui, pois há um hospital. Mas nunca se sabe", disse Abeer. Ela passa o dia atrás de notícias sobre as negociações no Egito, torcendo por um cessar-fogo que poderia ser anunciado a qualquer momento - assim como uma invasão terrestre de Israel. "As pessoas estão deixando suas casas em pânico e não sabemos o que pode acontecer. Só espero que isso acabe de uma vez por todas", declarou Abeer.

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