Cody O'Loughlin/The New York Times
Cody O'Loughlin/The New York Times

Sem ajuda do governo, mais americanos estão roubando comida em lojas durante a pandemia

Recessão do coronavírus é uma impiedosa mistura de alto desemprego e incerteza econômica

Redação, O Estado de S.Paulo

11 de dezembro de 2020 | 06h00

No começo da pandemia, Joo Park percebeu uma mudança preocupante no mercado onde trabalha como gerente, próximo ao centro de Washington: ele passou a flagrar, pelo menos uma vez por dia, pessoas escondendo sob a camisa ou dentro do casaco um pacote de carne, um saco de arroz ou outro tipo de comida. Fraldas, xampu e sabão em pó também começaram a desaparecer da loja cada vez mais.

Desde então, disse ele, os furtos mais que dobraram no Supermercado Capitol — apesar de ele ter passado a colocar mais funcionários na porta da loja, pedir aos clientes que deixem suas mochilas na entrada e ter instalado os mostradores de itens mais roubados, como álcool em gel e fermento, em locais mais à vista. Park não costuma chamar a polícia, optando, em vez disso, por banir da loja os clientes que são pegos roubando.

“A situação ficou muito mais difícil durante a pandemia”, afirmou ele. “As pessoas dizem: ‘Estou com fome’. E então, o que podemos fazer?”

A recessão do coronavírus é uma impiedosa mistura de alto desemprego e incerteza econômica. O estímulo do governo que evitou que milhões de americanos caíssem na miséria no início da pandemia já acabou há muito tempo, e uma nova ajuda ainda não passa de um distante ponto de luz no horizonte após meses de inação no Congresso. O problema da fome tornou-se crônico, alcançando níveis jamais vistos em décadas.

O resultado é um crescente subgrupo de americanos que roubam comida para sobreviver.

Os furtos em lojas estão visivelmente em alta desde que a pandemia começou, no segundo trimestre, e em níveis mais elevados do que os registrados em crises econômicas do passado, de acordo com entrevistas com mais de uma dezena de varejistas, especialistas em segurança e departamentos de polícia de todo o país. Mas o que distingue essa tendência, afirmam os especialistas, é o que tem sido roubado: mais produtos básicos, como pão, macarrão e leite em pó para bebês.

“Estamos observando uma alta em crimes de baixo potencial ofensivo", afirmou Jeff Zisner, diretor executivo da empresa de segurança privada Aegis. “Não são pessoas que entram nas lojas, pegam TVs e saem correndo pela porta da frente. É um tipo diferente de crime — são pessoas furtando produtos de consumo e itens associados a crianças e bebês.”

Enquanto os americanos são aconselhados a se preparar para um difícil inverno em meio a elevadíssimas taxas de infecção por coronavírus, com a recuperação econômica praticamente paralisada, a perspectiva a curto prazo é macabra. Mais de 20 milhões de americanos estão utilizando algum tipo de seguro desemprego, e 12 milhões de pessoas ficarão sem os benefícios no dia seguinte ao Natal, a não ser que novas assistências se concretizem. Apesar de os legisladores terem feito progresso, nesta semana, a respeito de um pacote de ajuda de US$ 908 bilhões, os detalhes ainda estão sendo acertados, afirmam assessores parlamentares.

Enquanto isso, estima-se que 54 milhões de americanos terão passado fome até o fim deste ano, um aumento de 45% em relação a 2019, de acordo com o Departamento de Agricultura dos EUA. Com a redução em iniciativas públicas de ajuda alimentar, como o Programa de Assistência de Nutrição Suplementar (SNAP, na sigla em inglês) e o Programa Especial de Nutrição Suplementar para Mulheres, Bebês e Crianças (WIC) — e outras ajudas federais prestes a expirar —, os bancos de alimentos e seus postos de distribuição estão saturados, registrando horas de espera e longas filas, com milhares de pessoas.

Vários programas federais de alimentação que forneceram bilhões de dólares em produtos frescos, laticínios e carne para os bancos de alimentos americanos estão prestes a expirar, no fim deste ano. O maior deles, Farmers to Families Food Box, forneceu mais de 120 milhões de caixas de comida durante a pandemia e já está ficando sem financiamento em muitas partes do país.

Com os Estados Unidos atualmente registrando mais de 150 mil novos casos de covid-19 por dia, algumas comunidades estão reintroduzindo restrições, em um esforço para conter o coronavírus. A maior parte da Califórnia está neste momento sob estritas restrições de circulação, por exemplo, enquanto estados como Nevada, Maryland e Pensilvânia estabeleceram novos critérios de lotação em locais fechados. Essas restrições tendem a atingir especialmente os já vulneráveis trabalhadores que ganham baixos salários prestando serviço em restaurantes, comércios e bares.

Em Maryland, Jean conciliava com sucesso a faculdade e um emprego e tinha acabado de comprar seu primeiro carro quando a pandemia estourou como uma enorme onda, pegando a todos de surpresa.  A creche do filho dela fechou repentinamente, em abril, obrigando-a a desistir do trabalho de recepcionista que lhe pagava US$ 15 a hora. Mas, pelo fato de ter pedido demissão, ela não se qualificou para os benefícios destinados aos desempregados. Ela contou que lhe foram negados cupons de alimentos em pelo menos três oportunidades, e que desistiu de tentar os bancos de alimentos locais por causa das filas.

Jean afirmou que, sem nenhum tipo de ajuda, suas economias acabaram em maio — e não lhe restaram opções. Então, ela começou a esconder comida no carrinho de seu filho quando ia ao Walmart local. Ela contou que pegava produtos como carne moída, arroz ou batatas, mas que sempre pagava por algo pequeno, como um chocolate. Todas as vezes ela dizia para si mesma que Deus a entenderia.

“Eu costumava pensar que, se fosse pega, diria: ‘Olha, me desculpe. Eu não estava roubando uma televisão. Eu só não sabia mais o que fazer. Não foi maldade. Estamos com fome'”, afirmou Jean, de 21 anos, que pediu para ser identificada somente pelo nome do meio, para poder falar abertamente de sua situação. “Não é algo de que me orgulhe, mas foi o que tive de fazer.”

Historicamente, os varejistas se preocupam mais com os funcionários em se tratando do que eles chamam de “desvio”. Os trabalhadores são normalmente responsáveis por um quarto dos US$ 25 bilhões em perdas globais relatadas todos os anos, categoria que inclui mercadorias perdidas, dinheiro roubado e erros de funcionários, afirmam especialistas em segurança.

Isso mudou com a pandemia à medida que os furtos dos clientes foram aumentando, especialmente em regiões com altos níveis de desemprego, afirmou Fabien Tiburce, diretor executivo da Compliant IA, empresa que fornece software de prevenção de perdas a varejistas. “Existe uma correlação histórica bem conhecida entre o desemprego e os furtos”, afirmou ele, uma conexão que é mais direta nos Estados Unidos do que em países com redes assistenciais mais robustas, como Canadá e Austrália.

As lojas do conglomerado de varejo popular Dollar Tree e Family Dollar, frequentemente instaladas em regiões de baixa renda, testemunharam “crescentes ocorrências de furto” ao longo deste ano, de acordo com sua porta-voz, Kayleigh Painter. Ela se recusou a compartilhar informações específicas ou protocolos, mas afirmou que sua empresa “avalia continuamente e melhora a segurança das lojas e os sistemas de vigilância, assim como nosso treinamento conjunto”.

Na Filadélfia, registros de furtos nas lojas varejistas tiveram alta de cerca de 60% em comparação ao ano anterior tão logo o presidente Donald Trump declarou, em março, estado de emergência nacional em razão da pandemia. Essa taxa permaneceu em níveis elevados até julho, pelo menos, de acordo com registros policiais da cidade.

Apesar da tendência de aumento nos furtos em lojas durante crises nacionais — aumentaram 16% depois dos ataques de 11 de setembro de 2001 e 34% na recessão de 2008, segundo a Associação Nacional de Prevenção ao Furto em Lojas, que registra dados dos tribunais americanos — a tendência atual é de um aumento ainda maior, de acordo com Read Hayes, criminologista da Universidade da Flórida e diretor do Conselho de Pesquisa em Prevenção de Perdas.

Hayes tem acompanhado os índices de furtos desde que o coronavírus começou a varrer os Estados Unidos, em março, e conversa pelo telefone a cada duas semanas com os diretores de 60 das principais redes de comércio varejista do país, para ajudá-los a evitar prejuízos. A maioria dos relatórios sobre furtos no varejo é inconsistente, afirmou ele, e, mesmo após 10 meses de pandemia, é cedo demais para conhecer o quadro completo.

“Acreditamos que tenha havido algum aumento no número de pessoas que, por causa da covid-19, não conseguem pagar pelos produtos”, afirmou Hayes. “Acredita-se que tenha havido um leve aumento no furto de itens de primeira necessidade, mas isso é realmente difícil de perceber.”

Na Virgínia, Sloane, de 28 anos, afirmou que tem escondido na bolsa abacates, cogumelos e outros produtos frescos desde setembro. Ela se preocupa constantemente em ser pega e rouba poucos itens de cada vez. “Mas, quando você está se alimentando todos os dias de comida barata, às vezes é bom ter um abacate para dar um sabor especial a um jantar”, afirmou ela.

Sloane, que pediu para ser identificada somente pelo primeiro nome para evitar ser processada judicialmente, trabalhava na indústria alimentar até que a pandemia pôs fim ao seu emprego. Seu companheiro, que trabalhava no varejo, ficou meses de licença, e depois desse período pediu demissão, em agosto, porque sentiu que ainda não era seguro voltar a trabalhar. Mas o pedido de demissão significou que não havia nenhum auxílio desemprego.

“As coisas estão ruins: contas atrasadas, aluguel atrasado, vamos perder nosso carro por falta de pagamento da prestação daqui a nove dias”, afirmou ela. “Estou acostumada a ser muito autossuficiente, e estar em uma situação tão desesperadora de uma hora para a outra dá uma sensação horrível.”

Como outros entrevistados pelo Washington Post, Sloane afirmou que prefere praticar os furtos em grandes redes de varejo, porque elas têm mais capacidade de absorver os prejuízos do que os pequenos negócios.

Park, o gerente do Supermercado Capitol, de Washington, por exemplo, afirmou que considerou brevemente a contração de guardas uniformizados para coibir os furtos, mas se deu conta que isso seria custoso demais para esse negócio de família, que já tinha tido de cortar mais da metade do quadro de funcionários durante a pandemia.

“Meu grau de desconfiança aumentou desde que comecei a ver pessoas furtando a loja todos os dias”, afirmou ele. “Assisto com muito mais frequência às imagens das câmeras de segurança. Se permitirmos que gente demais roube, teremos de fechar o negócio.”

Em razão de o monitoramento ser falho, os furtos em lojas são cronicamente subrelatados, de acordo com mais de uma dezena de departamentos locais de polícia e gabinetes de xerifes consultados pelo Post. Poucos deles monitoram dados de furtos em lojas e os divulgam publicamente, e os que o fazem frequentemente não tabulam os dados de acordo com os tipos de produtos que são roubados.

Alguns gerentes de lojas afirmam que pararam de chamar a polícia em casos menores de furtos porque não vale a pena gastar tempo ou recursos com isso, particularmente quando os funcionários dos estabelecimentos estão lidando com novas responsabilidades, como checar a temperatura dos clientes e garantir que eles usem máscaras. Muitos estabelecimentos, porém, estão tomando precauções adicionais: a demanda por guardas uniformizados e agentes disfarçados especializados em evitar prejuízos aumentou 35% durante a pandemia, de acordo com Zisner, da Aegis.

Aproximadamente 26 milhões de adultos — ou 1 a cada 8 americanos — relataram que não estavam comendo o suficiente em meados de novembro, de acordo com as mais recentes informações do Departamento Censitário dos Estados Unidos. Esse índice tem se elevado constantemente durante a pandemia, atingindo os mais altos níveis desde que a agência governamental começou a coletar esses dados, em 1998.

“Supostamente somos o maior e mais rico país do mundo — e não possuímos redes de proteção no caso de algo assim acontecer?”, afirmou Danielle Nierenberg, presidente e fundadora do Food Tank, uma organização sem fins lucrativos voltada para a segurança alimentar e a sustentabilidade. “As pessoas estão sendo forçadas a roubar, mas não deveriam ter de fazê-lo, e isso é uma grande tragédia americana .”

Alex finalizou seu mestrado em maio e se viu imediatamente em dificuldade: sem emprego, sem dinheiro e, com a maior parte do país ainda fechada, com pouca esperança de que algo mudasse.

Ela gastou a maior parte do cheque de US$ 1.200 da ajuda no aluguel e usou o pouco dinheiro que ainda restou para comprar comida. Tudo o mais — vitaminas, hidratantes, sabonetes líquidos — ela disse que roubou de uma unidade do Whole Foods Market a poucos quilômetros de seu apartamento, em Chicago.

“A situação era a seguinte: eu poderia gastar US$ 10 em uns dois legumes ou poderia gastar US$ 10 em uma caixa única de absorventes", afirmou Alex, 27 anos, que pediu para ser identificada pelo nome do meio para conversar com franqueza. Ela tem um emprego agora, que lhe paga US$ 15 a hora, mais ainda batalha para fechar as contas no azul. Ela afirma que, de vez em quando, continua a furtar em lojas — algo que nunca havia feito antes da pandemia.

Ela conta que circula pela loja sem chamar a atenção. Afirmou que, normalmente, escolhe alguns vegetais volumosos para disfarçar — um maço de couve, talvez, ou alguns abacates — pelos quais paga no caixa de autoatendimento; os produtos mais caros ela esconde na bolsa.

“Não me sinto muito culpada culpara por isso”, afirmou ela. “Tem sido muito frustrante pertencer a uma classe de pessoas que estão perdendo tanto neste momento. E também por haver uma outra classe que está lucrando com a pandemia. Bom, digamos que não me sinto tão mal por pegar US$ 15 ou US$ 20 em mercadorias do Whole Foods sendo que Jeff Bezos é o homem mais rico do planeta” (Bezos é fundador e diretor executivo da Amazon, que é dona do Whole Foods, e também é dono do Washington Post).

O Whole Foods não respondeu aos pedidos de comentários.

Jean, a mãe solteira de Maryland, afirmou que já tinha furtado em lojas algumas vezes antes da pandemia, indo a um Walmart de outro estado em busca de latas de leite em pó para bebês quando não conseguiu produzir leite materno o suficiente para seu filho. Ela parou com isso depois que a loja passou a trancar a prateleira das latas de eite, o que muitos varejistas fazem por causa do alto preço do produto.

Um porta-voz do Walmart se recusou a fazer comentários para esta reportagem.

Mas Jean afirmou que a crise do coronavírus desencadeou um novo grau de desespero. Encontrar emprego e creche se tornou cada vez mais difícil. Quando o dinheiro faltou, ela priorizou o aluguel e as prestações do carro, em vez da comida. “Meu carro e meu apartamento eram coisas que poderiam ser tiradas de mim — e então, o que seria de mim e meu filho?”, afirmou ela. “Isso não vai soar bem, mas a comida pelo menos eu podia tentar conseguir de outro jeito.”

A mãe dela ajudava, às vezes, mandando algumas centenas de dólares ou usando cupons de alimento para pagar por frango ou ervilhas congeladas. Isso as manteve até julho, quando veio a grande novidade: um trabalho em tempo integral em outro estado, ganhando US$ 16 a hora. Agora, Jean tem plano de saúde e faz doações para o banco de alimentos local.

Ela espera nunca mais ser obrigada a roubar novamente, apesar de afirmar que sua sensação de segurança está se esvaindo.

“Eu sei bem o que é fazer de tudo e, mesmo assim, não conseguir o que preciso”, afirmou ela. “E eu sei que isso pode acontecer de novo.” / W. POST, TRADUCÃO DE AUGUSTO CALIL

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