AP Photo/Fernando Vergara
AP Photo/Fernando Vergara

Sem armas, Farc temem vingança de paramilitares na Colômbia

Em cerimônia de entrega de armas, que colocou fim ao conflito, líder da guerrilha cobra promessas do governo colombiano

O Estado de S.Paulo

28 de junho de 2017 | 05h00

MESETAS, COLÔMBIA - O governo colombiano, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e a ONU selaram ontem em uma cerimônia na cidade de Mesetas, no cento do país, a deposição das armas do grupo. O presidente Juan Manuel Santos declarou encerrado o conflito armado na Colômbia, que começou em 1964. Agora, o desafio do país é superar a frustração crescente entre os ex-guerrilheiros e comunidades assoladas por décadas pelo conflito. 

Os 7 mil membros da guerrilha entregaram à ONU 7,1 mil armas e um pequeno grupo de seguranças manterá armas pessoais até agosto. “Hoje constatamos com emoção o fim dessa guerra absurda, que deixou mais de 8 milhões de vítimas”, disse Santos ao lado do líder das Farc, Rodrigo Londoño - o Timochenko. “A paz é um acordo entre corações. Hoje, trocamos as armas pelas palavras.”

No interior da Colômbia, um dos locais mais afetados pelo conflito, muitos civis ainda têm dúvidas sobre as promessas de desarmamento da guerrilha e sobre o abandono de atividades ilícitas, principalmente o narcotráfico.

 

Do lado rebelde, há insatisfação com as promessas do governo. No campo Mariana Paez, em uma das zonas de transição para os ex-guerrilheiros, as casas de concreto com água corrente e eletricidade ainda são uma promessa. 

Outra preocupação é uma possível vingança por parte de grupos que se opõem às Farc, agora que o grupo entregou as armas. Muitos temem campanhas de extermínio lideradas por egressos de grupos paramilitares - estes desmobilizados ainda no governo de Álvaro Uribe (2002-2010), um risco maior uma vez que estão desarmados. 

As Farc e o governo da Colômbia assinaram em setembro o acordo de paz que previa o desarmamento do grupo e sua transição para um partido político, mas a sua implementação tem sido lenta e criticada por rivais de Santos, como Uribe. 

No discurso de ontem, Timochenko reclamou de ‘armadilhas burocráticas e políticas’ e pediu que o governo cumpra suas promessas, além de festejar o desarmamento. “A infraestrutura desta zona rural é a melhor testemunha da lentidão do cumprimento do acordo com o governo nacional”, disse o líder das Farc.

Apesar disso, tanto a cúpula quanto combatentes das Farc não se arrependem. Stefanía Rodríguez entrou para a guerrilha aos 13 anos e aceitou abandonar sua arma, batizada de “Demônio da Tasmânia”, em uma alusão ao desenho animado, em nome de uma esperança de um futuro melhor e retomada de contato com a família. “Foi como perder metade de mim”, diz. “ Mas já era hora de silenciar as armas”, afirmou. “Esse conflito causou danos demais.”

Agora, Stefanía diz que, graças ao acordo de paz, conseguiu rever sua mãe, de quem havia se separado há sete anos, e pretende se tornar engenheira. 

O acordo foi rejeitado em um referendo, mas o governo acabou aprovando o pacto via Congresso. Nas últimas semanas, Uribe questionou se a guerrilha estaria entregando todo seu arsenal - uma insinuação que as Farc rejeitam. / AP

 

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