Sem armas fumegantes

Até agora, nenhuma revelação feita pelo WikiLeaks foi original ou constituiu um verdadeiro terremoto

JORGE G. CASTAÑEDA, O Estado de S.Paulo

18 de dezembro de 2010 | 00h00

Atualmente, todo mundo tem seu telegrama diplomático americano favorito - ou o terá em breve - pois os 250 mil documentos obtidos pelo WikiLeaks incluem referências a quase todos os países do mundo. Por enquanto, o WikiLeaks brindou a América Latina com interessantes mexericos às vezes com considerável conteúdo sobre o Brasil e a Argentina, análises de boa qualidade sobre Honduras, Bolívia e México, e algumas notas fascinantes sobre política regional e relações internacionais. Nada de extraordinário foi revelado, mas os telegramas permitem que leitores e analistas tirem algumas conclusões preliminares sobre a visão do governo de Barack Obama a respeito da região, das atitudes dos líderes latino-americanos em relação aos EUA, e da qualidade das atividades diplomáticas e da coleta de informações dos EUA no hemisfério.

Há também alguns documentos importantes, embora não muitos. Um telegrama impressionante foi enviado em 17 de novembro de 2009 por Charles H. Rivkin, embaixador americano na França, referente à concorrência entre as companhias francesas e a Boeing por um contrato de dezenas de bilhões de dólares para o fornecimento de caças bombardeiros de última geração ao Brasil. Talvez os relatos fossem um tanto ingênuos por omitir toda e qualquer referência aos inúmeros boatos no Brasil a respeito da enorme corrupção que envolveu as negociações. Mas podemos afirmar que a Dassault e a França provavelmente conseguirão o contrato, e este será considerado um marco histórico na trajetória da irrelevância dos EUA na América do Sul.

Nada disso foi original ou constituiu um verdadeiro terremoto, mas sugere a persistência da mentalidade da Guerra Fria na política externa americana sobre a América Latina.

Do mesmo modo, um telegrama referente à tentativa financiada pelo México, no início do ano, de criar uma entidade semelhante à Organização dos Estados Americanos, mas sem os EUA e o Canadá, está carregado de excessiva retórica, mas em grande parte cuidadosa em seu ataque violento à diplomacia mexicana. O apoio a uma Comunidade de Estados Caribenhos e Latino-Americanos, segundo o telegrama, é lógico para uma potência hegemônica regional em potencial como o Brasil, mas um tanto absurdo para o México, que realiza 90% de suas atividades econômicas com EUA e Canadá, e depende do apoio americano na sua luta contra os cartéis da droga.

Obama entrou pesadamente na guerra às drogas do México, e agora enfrenta perigos que mal são mencionados em Washington, salvo em telegramas procedentes do México. Sobre a execução de Arturo Beltrán Leyva, um dos principais líderes do narcotráfico, no final de 2009, o embaixador americano Carlos Pascual descreveu a falta total de cooperação entre as agências de informações e os militares.

A conclusão lógica de tudo isso é evidente: como o próprio presidente mexicano, Felipe Calderón, não pode ser presidente e ao mesmo tempo o demolidor dos cartéis, não está disposto e logicamente é incapaz de empreender a necessária coordenação diária entre agências no México, o vácuo será preenchido por mais alguém. E cada vez mais esta entidade é a embaixada americana na Cidade do México, com uma equipe de diplomatas do mais alto escalão que talvez estejam dispostos a dar passos maiores do que as pernas.

Não há nenhuma evidência (a famosa arma fumegante) no WikiLeaks sobre a política americana em relação à América Latina (pelo menos, por enquanto). Mas há um tesouro de informações, confirmações, reflexões e ensinamentos que a região deverá estudar nos próximos anos para obter uma percepção melhor da sua situação. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É EX-MINISTRO DO EXTERIOR DO MÉXICO (2000-2003)

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