Sem Chávez, chavista é favorito para eleições de campanha curta e tensa

Ausência. Comoção causada pela morte do líder deve impulsionar candidatura de Nicolás Maduro, mas nenhum dos caciques da revolução bolivariana tem controle suficiente sobre as massas que mobilizam; CNE confirma votação presidencial para 14 de abril

ROBERTO LAMEIRINHAS , ENVIADO ESPECIAL / CARACAS, O Estado de S.Paulo

10 de março de 2013 | 02h03

O corpo do presidente venezuelano Hugo Chávez ainda estava exposto para visitação - como deve seguir ao longo desta semana - quando a campanha para eleger seu sucessor ganhou cores mais fortes na sexta-feira. Nicolás Maduro, vice-presidente de Chávez e indicado por ele como seu herdeiro político, tomava posse como presidente encarregado momentos após duras declarações do virtual candidato opositor, Henrique Capriles.

Governador de Miranda e candidato derrotado por Chávez em outubro, Capriles acusou o Tribunal Superior de Justiça (TSJ), que emitiu a sentença que deu a Maduro luz verde para exercer a presidência e fazer campanha para as eleições ao mesmo tempo, de ter fraudado a Constituição.

A resposta de Maduro, ainda durante o discurso de posse - ao lado de outro dos caciques chavistas, o presidente da Assembleia Nacional, Diosdado Cabello -, foi imediata: "Advertimos aos setores da ultradireita que não se equivoquem. O povo está nas ruas, de luto, mas disposto a defender as conquistas de sua revolução".

"Começam a surgir os sinais de que a campanha que vem nas próximas semanas será tensa e, pela primeira vez em 14 anos, o chavismo se responsabiliza pela ação das massas que estão nas ruas sem a liderança de Chávez", afirmou ao Estado o cientista político e consultor de empresas Luis Rivas. "Nem Maduro nem Cabello tem a influência necessária para manter essas multidões sob controle."

Ontem, o Conselho Nacional Eleitoral venezuelano marcou a votação para o dia 14 de abril. A única pesquisa disponível até agora capaz de projetar algo sobre a disputa eleitoral entre Maduro e Capriles, do instituto Hinterlaces, divulgada dia 28, indica que 67% dos venezuelanos se dizem identificados com a revolução bolivariana. Por outro lado, 56% dos entrevistados consideram que o trabalho da oposição tem sido mais negativo do que positivo para a Venezuela.

Quase todos os analistas concordam que a comoção nacional pela morte de Chávez deve reforçar ainda mais a votação em Maduro. "É verdadeiramente impressionante a mobilização dos partidários chavistas nos funerais do presidente Chávez", declarou o diretor do instituto de pesquisas Datanálisis, Luis Vicente León, para quem a "mitificação da figura de Chávez vai dificultar a tarefa da oposição".

A Mesa da Unidade Democrática (MUD) tem como trunfos para apresentar na campanha os problemas crônicos do país que os 14 anos de chavismo não conseguiram resolver.

A inflação projetada para 2013 se aproxima dos 30% - após fechar 2012 em 20,1% -, em razão de uma política econômica incapaz de atrair capital estrangeiro, uma taxa de câmbio descontrolada e uma intransponível dependência da receita petrolífera.

A violência urbana que cobrou 21 mil vidas em 2012 - um dos índices de criminalidade mais elevados do mundo - tornou-se endêmica e é uma das principais preocupações do eleitor venezuelano. Além disso, o pouco investimento em manutenção e os custos dos subsídios para os programas sociais do chavismo vêm retirando a competitividade da estatal petrolífera PDVSA. Antes de Chávez assumir o poder, a Venezuela extraía cerca de 4 milhões de barris de petróleo por dia. Hoje, com o preço do produto em alta no mercado mundial, a extração está em torno dos 3 milhões de barris por dia.

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