Felipe Corazza/Estadão
Felipe Corazza/Estadão

Sem clientes, alfaiataria de 50 anos em Caracas fechará

Negócio iniciado há 50 anos pelo pai de Augusto Gaztaldi vendia entre 20 e 25 camisas sob medida há dois anos, mas hoje não comercializa mais do que 4 ou 5 destes itens por mês; desiludido, alfaiate montará empresa com a filha nos EUA

Felipe Corazza, Enviado Especial / Caracas, O Estado de S.Paulo

30 Abril 2017 | 05h00

CARACAS - Há 50 anos, Augusto Gaztaldi chegou do Equador e abriu uma alfaiataria que viria a ser uma das mais tradicionais de Caracas. Agora, seu filho, também Augusto, terá de fechá-la. A loja, na Avenida Solano, paralela ao calçadão comercial de Sabana Grande, resistiu a sucessivos governos e crises, mas nunca sofreu tanto quanto sob o chavismo. 

A perda do poder de compra da população e a fuga de cérebros do país reduziu drasticamente a clientela - antes composta majoritariamente por médicos, advogados e engenheiros, profissionais de alta qualificação que têm deixado o país em número cada vez maior.

As próximas semanas serão as últimas do nome de Augusto Gaztaldi a ser exibido na fachada da alfaiataria, que ainda conserva suas prateleiras em madeira de lei - mais da metade está vazia, no entanto, e as que restam abrigam rolos magros de tecido importado utilizado em ternos, camisas e coletes. “Já estou montando com minha filha uma empresa nos Estados Unidos, uma empresa de serviços. Não tem nada a ver com meu ofício, mas aqui não se pode mais ficar”, lamenta Gaztaldi.

Como exemplo da redução drástica na clientela, o alfaiate cita o volume de vendas das camisas sob medida. “Até dois anos atrás, vendia 20, 25 por mês. Hoje, vendo 4 ou 5.” Os valores não são baixos, mas “sempre tivemos clientes que vinham e compravam, no mínimo, 12 ternos por ano. Os médicos vinham e encomendavam duas camisas por vez. Quando voltavam para buscar, já encomendavam outras duas”, lembra. 

A primeira tentativa para sobreviver à derrocada econômica do país foi a redução da margem de lucro. Segundo Gaztaldi, hoje a operação rende em torno de 20% acima do custo. Uma camisa que era vendida a cerca de US$ 200, em 2011, passou a custar US$ 180 no ano seguinte e hoje já está em cerca de US$ 80 ou US$ 120, a depender do tecido escolhido pelo cliente.

Os preços sempre foram cobrados em dólar, o que manteve a família Gaztaldi razoavelmente protegida das variações da moeda local, o bolívar. Mas a alta de preços de alimentos e outros itens básicos teve seu impacto também. “Temos nossas casas próprias, temos nossa vida, mas não podemos mais sair para jantar como fazíamos antes. Hoje, trago marmita para cá”, afirma o proprietário, enfatizando que o problema não é mais de importação de insumos ou de variação cambial, mas sim de falta de clientes. “Quem tem mais dinheiro na Venezuela agora não tem o bom gosto para se vestir aqui”, sentencia.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.