AFP PHOTO / PAUL J. RICHARDS
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Sem cortes de emissões nos EUA, aquecimento ficará acima de meta global, diz ONU

Um dia depois de Donald Trump anunciar a retirada de seu país do Acordo de Paris sobre as mudanças climáticas, entidades dizem que políticos precisam tomar decisões com base na ciência

Jamil Chade, Correspondente / Genebra, O Estado de S.Paulo

02 de junho de 2017 | 07h51

GENEBRA - Sem uma redução de emissões de CO2 (dióxido de carbono) nos Estados Unidos, os modelos científicos indicam que o aquecimento global ficaria acima da meta estabelecida pela comunidade internacional ao assinar o Acordo de Paris sobre mudanças climáticas. 

Na quinta-feira, o presidente americano Donald Trump anunciou a saída do país do tratado. De acordo com as estimativas da ONU, sem uma ação dos americanos a temperatura seria 0,3 grau Celsius acima do pior cenário possível. 

A economia dos EUA é a segunda maior emissora de gases de efeito estufa no mundo. Para que a meta de limitar o aquecimento global não seja de mais de 1,5 grau Celsius até o final do século, governos assumiram o compromisso de cortar amplamente suas emissões. No caso americano, essa redução seria de mais de 25% até 2025.

De acordo com Deon Terblance, diretor de pesquisas da Organização Meteorológica Mundial (OMM), uma decisão americana de não agir teria um impacto importante na temperatura do planeta. "O aquecimento vai ocorrer de toda forma, já que as emissões estão concentradas e essa concentração continua", disse. "Mas o que queremos é limitar essa tendência", explicou. 

Sem a contribuição americana para os cortes, portanto, não haveria como atingir essa meta.  Para a OMM, também fica claro que a decisão de Trump torna urgente que políticas públicas e ações de governos sejam tomadas com base na ciência. 

"Os eventos extremos já aumentaram em razão de mudanças climáticas e isso vai continuar. É vital que a ciência informe política", disse o representante da entidade. 

Johannes Cullman, diretor de Clima da OMM, admite que os cientistas internacionais podem não ter sido claros o suficiente para explicar à população o que está ocorrendo no planeta. "Há questionamento sobre a base cientifica que trabalhamos por anos", disse. "Talvez não tenhamos sido claros e agora temos a chance de fazer nossas mensagens serem ouvidas", afirmou. 

Para o Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), o aquecimento é uma "realidade". "Evidências científicas são claras de que o clima muda e muda em razão de ação humana", disse Jonathan Lynn, porta-voz da entidade vencedora do Prêmio Nobel da Paz. "Sem medidas de prevenção para limitar esse aumento de temperatura, há um risco de que o impacto seja irreversível e sério até o final do século", alertou.

"Precisamos mais do que nunca da ciência para informar os políticos", disse Lynn, lembrando que o Acordo de Paris foi fechado com base em informações cientificas. Em sua avaliação, lutar contra mudanças climáticas só pode ter algum êxito se for feito "de forma coletiva". 

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