EFE/Alejandro Ernesto
EFE/Alejandro Ernesto

Sem ‘culto oficial’, leste de Cuba exalta Fidel

Berço da revolução, Santiago lembra líder com pôsteres e outdoors; Raúl diz que está proibido dar nome do ex-presidente a estátuas e ruas

Cláudia Trevisan, ENVIADA ESPECIAL / SANTIAGO DE CUBA, O Estado de S. Paulo

05 Dezembro 2016 | 05h00

SANTIAGO DE CUBA - Em contraste com outros líderes autoritários do século 20, Fidel Castro preferiu ser cremado, e não embalsamado, e determinou que sua imagem não apareça em estátuas ou monumentos públicos do país. Mas a rejeição formal ao culto à personalidade contrasta com uma realidade na qual a figura do comandante é onipresente, principalmente no “oriente” onde nasceu a Revolução Cubana, em 1959. 

Não há estátuas de Fidel em Cuba, o dirigente também não dá nome a ruas, praças, escolas ou órgãos do governo. A proibição de que isso ocorra depois de sua morte estará prevista em lei, anunciou Raúl Castro no último evento público em homenagem a seu irmão, na noite de sábado, em Santiago de Cuba. 

O atual presidente discursou diante de uma enorme fotografia em preto e branco de Fidel na Serra Maestra, logo depois da vitória da revolução. À sua direita, um grande outdoor mostrava o dirigente segurando um fuzil vestindo o uniforme e o boné verde oliva celebrizados por ele. 

Fidel pode não ter estátuas em Cuba, mas fotos, murais e pôsteres se encarregaram de criar uma mitologia em torno de sua história. Muitos deles são resultado da iniciativa de artistas anônimos ou célebres, mas acabaram sendo propagados pelo governo.  

As imagens de Fidel se tornam mais frequentes quanto mais perto da cidade de Santiago de Cuba, berço da Revolução Cubana. Nas ruas e casas dali, o número de outdoors e pôsteres com a imagem do líder cubano é bem maior do que em Havana. De lá é possível ver a Serra Maestra, base dos guerrilheiros que se rebelaram contra o ditador Fulgencio Batista a partir de 1956.  

A pobreza também cresce quanto mais próximo se está do local de nascimento da revolução. Há favelas nas proximidades da praça em que ocorreu a última homenagem pública a Fidel. Em alguns pontos do caminho percorrido pela caravana que levou suas cinzas, cubanos vivem em barracos improvisados com esgoto a céu aberto. Em várias regiões de Santiago não há água encanada e os moradores dependem de caminhões pipa para o abastecimento.  

Ao decidir que não seria embalsamado, Fidel se diferenciou da linhagem de líderes autoritários que tiveram seus corpos transformados em objetos de propaganda dos regimes que criaram. A tradição foi iniciada pelo russo Vladimir Lenin em 1924, ao qual se seguiram o chinês Mao Tsé-tung, os norte-coreanos Kim il-Sung e Kim Jong-il e o vietnamita Ho Chi Mihn.  

O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, tinha planos de preservar o corpo de seu padrinho político, Hugo Chávez, para mantê-lo exposto em Caracas. A ideia foi descartada quando os embalsamadores disseram que o estado de decomposição do corpo impedia sua preservação. 

Imagem. Durante os quase 50 anos em que exerceu o poder, Fidel era um personagem inescapável no cotidiano dos cubanos, que ouviam seus longos discursos e entrevistas nas emissoras de rádio e televisão controladas pelo Estado.  

A versão da história da imprensa oficial apresenta o líder como o grande benfeitor de Cuba, responsável pela universalização dos serviços de saúde e educação e o enfrentamento do império americano. E as palavras de ordem usadas para celebrá-lo revelam o caráter superlativo de sua imagem: "Yo soy Fidel", "Fidel, gigante, eterno comandante", "Se oye, si siente, Fidel está presente."    

Mas 57 anos depois da revolução, a população da ilha dá mostras crescentes de frustração com uma realidade de privações. Como muitos cubanos, Eduardo, de 82 anos, reclama das dificuldades para suprir a mais básica necessidade humana, a alimentação. Sua aposentadoria de 300 pesos cubanos não é suficiente para comprar comida e ele tem de fazer bicos para complementar a pensão. 

A cesta básica subsidiada pelo governo cubano não chega até o fim do mês e a população é obrigada a comprar o que falta nos mercados livres, onde os preços não cabem no salário médio mensal de US$ 20. 

 

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